RAQUEL OCHOA BOM DIA OU GOOD MORNING?
FERNANDO MORAIS GOMES MISSA DAS DEZ EM S.MARTINHO EDUARDO SÉRGIO O OLHO DA LIBÉLULA FILOMENA MARONA BEJA A SENHORA INFANTA EM SINTRA GALOPIM DE CARVALHO PEGADAS NA PRAIA GRANDE DO RODÍZIO
Sempre disse que não é só viajar. A chave está em viajar o mais rapidamente possível. O mundo muda tão aceleradamente que ir a certos sítios hoje, será completamente diferente a ir daqui a três anos. As aventuras que nos esperam hoje estão em causa amanhã - substituídas por Starbucks e lojas intercontinentais que servem um estar uniformizado, seja ele de bom ou mau gosto. Não vamos longe, veja-se Lisboa. Há poucos anos, quando se encontrava um turista em Lisboa, parecia que estávamos perante alguém que se decidira a explorar a savana africana. Para nós era normal caminhar pela encosta do castelo, descer aos becos de Alfama e tratar de algum assunto numa loja específica no Intendente sem ver um único estrangeiro. E quando aparecia um, ginástica aos sentidos, suscitava um cuidado, quase, por aquela criatura. Saberia desenvencilhar-se, pedir comida, encontrar o caminho para o aeroporto? Metíamos conversa, tínhamos a necessidade intrínseca de saber a jornada até ali e sobretudo o porquê de Portugal ser um destino. Não víamos. Mantinha-se à frente dos nossos olhos e não víamos. Não percebíamos o quão diferentes éramos desse mundo turístico, visitado, intensamente procurado. Paris, Amesterdão, Roma, Londres… A nós ninguém nos queria. Isto era nosso. A nós bastava-nos a certeza de não nos querermos ir embora para justificar a permanência. Mas a verdade é que provavelmente não sabíamos ver a beleza de Lisboa. Sintra e outros pontos do país talvez sejam casos diferentes, no entanto, também se aplica a este tricotar de ideias. Hoje em dia tudo mudou. O turismo, não há dúvida, é essencial. Eles perceberam finalmente tudo o que esta terra tem de genial. Falaram uns com os outros, passaram a mensagem com a urgência de um grande segredo. Venham! Venham todos, gritaram! Aquilo é uma maravilha, uma cidade europeia com cheiro a norte de África, um recanto de culturas intercaladas e em recato miscigenadas, um paraíso para gente civilizada e comilona - um lugar onde todos ainda nos sentimos exploradores sem ter de enfrentar os novos perigos nas pirâmides do Egipto. Vieram tantos que se tornou um desperdício não lhes indicarem os caminhos, afinal de contas, ninguém destes vinha com intenção de dormir num vão de escada ou passar fome. Ninguém tinha um salário abaixo dos mil euros. Os preços subiram porque não raro víamos as reacções destes ingleses, franceses, até gregos, imagine-se, rirem às gargalhadas com o irrisório da soma que lhes chegava num papelhinho ao final da refeição. Aumentou-se o paleio. Aumentaram-se as retinas na forma como olhávamos para as nossas cidades. Pelos olhos deles percebemos: vivíamos num lugar lindo, apesar de termos nascido e crescido a falar mal de nós próprios, dos nossos vizinhos, do nosso país. Afinal havia aqui algo que eles viam e nós não víamos. O sol, a comida, a paz, a lenga-lenga do costume que agora me coíbo de recitar. Foi preciso abrir o nosso país aos estrangeiros para percebermos quem somos. É a isto que se chama globalização? Foram eles que nos escolheram, que nos descobriram, insisto, foram eles que viram. Não fomos nós que soubemos fazer bom alarde do nosso potencial turístico. Saber quem somos não é só uma questão de identidade, e nunca é uma questão de nacionalismo. Sabermos quem somos é uma plataforma para sermos do mundo, e sobretudo melhores cidadãos do mundo. E isso é um gesto quotidiano: por exemplo, ao dizermos “good morning”, de supetão, sem conhecermos as pessoas, sem sabermos de onde são, aqui em Portugal, soa-me ridículo. Ou quando chegamos a um qualquer serviço público e nos tratam por” Sir” ou “Mam”. Nas minhas afortunadas viagens a Cabo Verde, vejo o filme ao contrário, o outro lado do espelho. Andam por lá muitos franceses: gostam de montanhas e gente com sentido de humor. Vão para o destino perfeito. Os franceses são, contemporaneamente, um dos povos mais exploradores. Em grande número, são eles que começam a ir ao novo destino que em breve estará na berra. Já me cruzei com centenas deles em Santiago, São Vicente, Fogo e Santo Antão. Nunca ouvi um único dizer “bom dia”, embora a saudação matinal na língua oficial e em crioulo seja “Bom dia!” Pergunto-me o porquê desta resistência a algo tão simples, esta delicada forma de aproximação ao outro que é um gesto de boa educação e revela alguma inteligência. Ora, se aqui, onde vivemos, nem conseguimos entalhar conversa na nossa própria língua, como se ela fosse “cousa rara” há qualquer coisa estranha ou talvez até uma forma de provincianismo. Há poucos dias, na apresentação do magnífico livro de Juva Batella, “Língua de Fora”, Manuel Monteiro apresentando-o, referia-se assim a provincianismo: “Não saber (ou não querer saber ) o caudal de conhecimento que é anterior a nós, seja a literatura ou qualquer outra forma de cultura.” Sermos cultos, estou convencida, também é conseguir ser natural. Já o dizia Oscar Wilde: “Ser natural é a mais difícil das poses.” Acho realmente que é preciso viajar rapidamente para todos os nossos destinos de sonho e conhecê-los antes que alguém os reconheça como icónicos. Como tudo na vida, não vale a pena esperar por certezas antes de viajar, é preciso partir e ir lá fazer as perguntas antes dos outros. A resposta a estas chama-se aventura. Enquanto isso, se não formos a lado nenhum, tratemos de ser nós próprios aqui (de) onde somos.

Revista cultural de Sintra

RAQUEL OCHOA BOM DIA OU GOOD MORNING? GONÇALO MOLEIRO "A ARQUITECTURA E O MODO COMO QUEREMOS VIVER" JOÃO RODIL CHRISTOPHER ISHERWOOD E A GERAÇÃO AUDEN EM SINTRA MIGUEL REAL BELÍSSIMO RETRACTO FICCIONAL DO CONVENTO DOS CAPUCHOS

Copyright © 2017 João Lourenço

RAQUEL OCHOA BOM DIA OU GOOD MORNING?
FERNANDO MORAIS GOMES MISSA DAS DEZ EM S.MARTINHO EDUARDO SÉRGIO O OLHO DA LIBÉLULA FILOMENA MARONA BEJA A SENHORA INFANTA EM SINTRA GALOPIM DE CARVALHO PEGADAS NA PRAIA GRANDE DO RODÍZIO
Sempre disse que não é só viajar. A chave está em viajar o mais rapidamente possível. O mundo muda tão aceleradamente que ir a certos sítios hoje, será completamente diferente a ir daqui a três anos. As aventuras que nos esperam hoje estão em causa amanhã - substituídas por Starbucks e lojas intercontinentais que servem um estar uniformizado, seja ele de bom ou mau gosto. Não vamos longe, veja-se Lisboa. Há poucos anos, quando se encontrava um turista em Lisboa, parecia que estávamos perante alguém que se decidira a explorar a savana africana. Para nós era normal caminhar pela encosta do castelo, descer aos becos de Alfama e tratar de algum assunto numa loja específica no Intendente sem ver um único estrangeiro. E quando aparecia um, ginástica aos sentidos, suscitava um cuidado, quase, por aquela criatura. Saberia desenvencilhar-se, pedir comida, encontrar o caminho para o aeroporto? Metíamos conversa, tínhamos a necessidade intrínseca de saber a jornada até ali e sobretudo o porquê de Portugal ser um destino. Não víamos. Mantinha-se à frente dos nossos olhos e não víamos. Não percebíamos o quão diferentes éramos desse mundo turístico, visitado, intensamente procurado. Paris, Amesterdão, Roma, Londres… A nós ninguém nos queria. Isto era nosso. A nós bastava-nos a certeza de não nos querermos ir embora para justificar a permanência. Mas a verdade é que provavelmente não sabíamos ver a beleza de Lisboa. Sintra e outros pontos do país talvez sejam casos diferentes, no entanto, também se aplica a este tricotar de ideias. Hoje em dia tudo mudou. O turismo, não há dúvida, é essencial. Eles perceberam finalmente tudo o que esta terra tem de genial. Falaram uns com os outros, passaram a mensagem com a urgência de um grande segredo. Venham! Venham todos, gritaram! Aquilo é uma maravilha, uma cidade europeia com cheiro a norte de África, um recanto de culturas intercaladas e em recato miscigenadas, um paraíso para gente civilizada e comilona - um lugar onde todos ainda nos sentimos exploradores sem ter de enfrentar os novos perigos nas pirâmides do Egipto. Vieram tantos que se tornou um desperdício não lhes indicarem os caminhos, afinal de contas, ninguém destes vinha com intenção de dormir num vão de escada ou passar fome. Ninguém tinha um salário abaixo dos mil euros. Os preços subiram porque não raro víamos as reacções destes ingleses, franceses, até gregos, imagine-se, rirem às gargalhadas com o irrisório da soma que lhes chegava num papelhinho ao final da refeição. Aumentou-se o paleio. Aumentaram-se as retinas na forma como olhávamos para as nossas cidades. Pelos olhos deles percebemos: vivíamos num lugar lindo, apesar de termos nascido e crescido a falar mal de nós próprios, dos nossos vizinhos, do nosso país. Afinal havia aqui algo que eles viam e nós não víamos. O sol, a comida, a paz, a lenga-lenga do costume que agora me coíbo de recitar. Foi preciso abrir o nosso país aos estrangeiros para percebermos quem somos. É a isto que se chama globalização? Foram eles que nos escolheram, que nos descobriram, insisto, foram eles que viram. Não fomos nós que soubemos fazer bom alarde do nosso potencial turístico. Saber quem somos não é só uma questão de identidade, e nunca é uma questão de nacionalismo. Sabermos quem somos é uma plataforma para sermos do mundo, e sobretudo melhores cidadãos do mundo. E isso é um gesto quotidiano: por exemplo, ao dizermos “good morning”, de supetão, sem conhecermos as pessoas, sem sabermos de onde são, aqui em Portugal, soa-me ridículo. Ou quando chegamos a um qualquer serviço público e nos tratam por” Sir” ou “Mam”. Nas minhas afortunadas viagens a Cabo Verde, vejo o filme ao contrário, o outro lado do espelho. Andam por lá muitos franceses: gostam de montanhas e gente com sentido de humor. Vão para o destino perfeito. Os franceses são, contemporaneamente, um dos povos mais exploradores. Em grande número, são eles que começam a ir ao novo destino que em breve estará na berra. Já me cruzei com centenas deles em Santiago, São Vicente, Fogo e Santo Antão. Nunca ouvi um único dizer “bom dia”, embora a saudação matinal na língua oficial e em crioulo seja “Bom dia!” Pergunto-me o porquê desta resistência a algo tão simples, esta delicada forma de aproximação ao outro que é um gesto de boa educação e revela alguma inteligência. Ora, se aqui, onde vivemos, nem conseguimos entalhar conversa na nossa própria língua, como se ela fosse “cousa rara” há qualquer coisa estranha ou talvez até uma forma de provincianismo. Há poucos dias, na apresentação do magnífico livro de Juva Batella, “Língua de Fora”, Manuel Monteiro apresentando-o, referia-se assim a provincianismo: “Não saber (ou não querer saber ) o caudal de conhecimento que é anterior a nós, seja a literatura ou qualquer outra forma de cultura.” Sermos cultos, estou convencida, também é conseguir ser natural. Já o dizia Oscar Wilde: “Ser natural é a mais difícil das poses.” Acho realmente que é preciso viajar rapidamente para todos os nossos destinos de sonho e conhecê-los antes que alguém os reconheça como icónicos. Como tudo na vida, não vale a pena esperar por certezas antes de viajar, é preciso partir e ir lá fazer as perguntas antes dos outros. A resposta a estas chama-se aventura. Enquanto isso, se não formos a lado nenhum, tratemos de ser nós próprios aqui (de) onde somos.
RAQUEL OCHOA BOM DIA OU GOOD MORNING? GONÇALO MOLEIRO "A ARQUITECTURA E O MODO COMO QUEREMOS VIVER" JOÃO RODIL CHRISTOPHER ISHERWOOD E A GERAÇÃO AUDEN EM SINTRA MIGUEL REAL BELÍSSIMO RETRACTO FICCIONAL DO CONVENTO DOS CAPUCHOS
RAQUEL OCHOA BOM DIA OU GOOD MORNING?
Sempre disse que não é só viajar. A chave está em viajar o mais rapidamente possível. O mundo muda tão aceleradamente que ir a certos sítios hoje, será completamente diferente a ir daqui a três anos. As aventuras que nos esperam hoje estão em causa amanhã - substituídas por Starbucks e lojas intercontinentais que servem um estar uniformizado, seja ele de bom ou mau gosto. Não vamos longe, veja-se Lisboa. Há poucos anos, quando se encontrava um turista em Lisboa, parecia que estávamos perante alguém que se decidira a explorar a savana africana. Para nós era normal caminhar pela encosta do castelo, descer aos becos de Alfama e tratar de algum assunto numa loja específica no Intendente sem ver um único estrangeiro. E quando aparecia um, ginástica aos sentidos, suscitava um cuidado, quase, por aquela criatura. Saberia desenvencilhar-se, pedir comida, encontrar o caminho para o aeroporto? Metíamos conversa, tínhamos a necessidade intrínseca de saber a jornada até ali e sobretudo o porquê de Portugal ser um destino. Não víamos. Mantinha-se à frente dos nossos olhos e não víamos. Não percebíamos o quão diferentes éramos desse mundo turístico, visitado, intensamente procurado. Paris, Amesterdão, Roma, Londres… A nós ninguém nos queria. Isto era nosso. A nós bastava-nos a certeza de não nos querermos ir embora para justificar a permanência. Mas a verdade é que provavelmente não sabíamos ver a beleza de Lisboa. Sintra e outros pontos do país talvez sejam casos diferentes, no entanto, também se aplica a este tricotar de ideias. Hoje em dia tudo mudou. O turismo, não há dúvida, é essencial. Eles perceberam finalmente tudo o que esta terra tem de genial. Falaram uns com os outros, passaram a mensagem com a urgência de um grande segredo. Venham! Venham todos, gritaram! Aquilo é uma maravilha, uma cidade europeia com cheiro a norte de África, um recanto de culturas intercaladas e em recato miscigenadas, um paraíso para gente civilizada e comilona - um lugar onde todos ainda nos sentimos exploradores sem ter de enfrentar os novos perigos nas pirâmides do Egipto. Vieram tantos que se tornou um desperdício não lhes indicarem os caminhos, afinal de contas, ninguém destes vinha com intenção de dormir num vão de escada ou passar fome. Ninguém tinha um salário abaixo dos mil euros. Os preços subiram porque não raro víamos as reacções destes ingleses, franceses, até gregos, imagine-se, rirem às gargalhadas com o irrisório da soma que lhes chegava num papelhinho ao final da refeição. Aumentou-se o paleio. Aumentaram-se as retinas na forma como olhávamos para as nossas cidades. Pelos olhos deles percebemos: vivíamos num lugar lindo, apesar de termos nascido e crescido a falar mal de nós próprios, dos nossos vizinhos, do nosso país. Afinal havia aqui algo que eles viam e nós não víamos. O sol, a comida, a paz, a lenga-lenga do costume que agora me coíbo de recitar. Foi preciso abrir o nosso país aos estrangeiros para percebermos quem somos. É a isto que se chama globalização? Foram eles que nos escolheram, que nos descobriram, insisto, foram eles que viram. Não fomos nós que soubemos fazer bom alarde do nosso potencial turístico. Saber quem somos não é só uma questão de identidade, e nunca é uma questão de nacionalismo. Sabermos quem somos é uma plataforma para sermos do mundo, e sobretudo melhores cidadãos do mundo. E isso é um gesto quotidiano: por exemplo, ao dizermos “good morning”, de supetão, sem conhecermos as pessoas, sem sabermos de onde são, aqui em Portugal, soa-me ridículo. Ou quando chegamos a um qualquer serviço público e nos tratam por” Sir” ou “Mam”. Nas minhas afortunadas viagens a Cabo Verde, vejo o filme ao contrário, o outro lado do espelho. Andam por lá muitos franceses: gostam de montanhas e gente com sentido de humor. Vão para o destino perfeito. Os franceses são, contemporaneamente, um dos povos mais exploradores. Em grande número, são eles que começam a ir ao novo destino que em breve estará na berra. Já me cruzei com centenas deles em Santiago, São Vicente, Fogo e Santo Antão. Nunca ouvi um único dizer “bom dia”, embora a saudação matinal na língua oficial e em crioulo seja “Bom dia!” Pergunto-me o porquê desta resistência a algo tão simples, esta delicada forma de aproximação ao outro que é um gesto de boa educação e revela alguma inteligência. Ora, se aqui, onde vivemos, nem conseguimos entalhar conversa na nossa própria língua, como se ela fosse “cousa rara” há qualquer coisa estranha ou talvez até uma forma de provincianismo. Há poucos dias, na apresentação do magnífico livro de Juva Batella, “Língua de Fora”, Manuel Monteiro apresentando-o, referia-se assim a provincianismo: “Não saber (ou não querer saber ) o caudal de conhecimento que é anterior a nós, seja a literatura ou qualquer outra forma de cultura.” Sermos cultos, estou convencida, também é conseguir ser natural. Já o dizia Oscar Wilde: “Ser natural é a mais difícil das poses.” Acho realmente que é preciso viajar rapidamente para todos os nossos destinos de sonho e conhecê-los antes que alguém os reconheça como icónicos. Como tudo na vida, não vale a pena esperar por certezas antes de viajar, é preciso partir e ir lá fazer as perguntas antes dos outros. A resposta a estas chama-se aventura. Enquanto isso, se não formos a lado nenhum, tratemos de ser nós próprios aqui (de) onde somos.
RAQUEL OCHOA BOM DIA OU GOOD MORNING?
Sempre disse que não é só viajar. A chave está em viajar o mais rapidamente possível. O mundo muda tão aceleradamente que ir a certos sítios hoje, será completamente diferente a ir daqui a três anos. As aventuras que nos esperam hoje estão em causa amanhã - substituídas por Starbucks e lojas intercontinentais que servem um estar uniformizado, seja ele de bom ou mau gosto. Não vamos longe, veja-se Lisboa. Há poucos anos, quando se encontrava um turista em Lisboa, parecia que estávamos perante alguém que se decidira a explorar a savana africana. Para nós era normal caminhar pela encosta do castelo, descer aos becos de Alfama e tratar de algum assunto numa loja específica no Intendente sem ver um único estrangeiro. E quando aparecia um, ginástica aos sentidos, suscitava um cuidado, quase, por aquela criatura. Saberia desenvencilhar-se, pedir comida, encontrar o caminho para o aeroporto? Metíamos conversa, tínhamos a necessidade intrínseca de saber a jornada até ali e sobretudo o porquê de Portugal ser um destino. Não víamos. Mantinha-se à frente dos nossos olhos e não víamos. Não percebíamos o quão diferentes éramos desse mundo turístico, visitado, intensamente procurado. Paris, Amesterdão, Roma, Londres… A nós ninguém nos queria. Isto era nosso. A nós bastava-nos a certeza de não nos querermos ir embora para justificar a permanência. Mas a verdade é que provavelmente não sabíamos ver a beleza de Lisboa. Sintra e outros pontos do país talvez sejam casos diferentes, no entanto, também se aplica a este tricotar de ideias. Hoje em dia tudo mudou. O turismo, não há dúvida, é essencial. Eles perceberam finalmente tudo o que esta terra tem de genial. Falaram uns com os outros, passaram a mensagem com a urgência de um grande segredo. Venham! Venham todos, gritaram! Aquilo é uma maravilha, uma cidade europeia com cheiro a norte de África, um recanto de culturas intercaladas e em recato miscigenadas, um paraíso para gente civilizada e comilona - um lugar onde todos ainda nos sentimos exploradores sem ter de enfrentar os novos perigos nas pirâmides do Egipto. Vieram tantos que se tornou um desperdício não lhes indicarem os caminhos, afinal de contas, ninguém destes vinha com intenção de dormir num vão de escada ou passar fome. Ninguém tinha um salário abaixo dos mil euros. Os preços subiram porque não raro víamos as reacções destes ingleses, franceses, até gregos, imagine-se, rirem às gargalhadas com o irrisório da soma que lhes chegava num papelhinho ao final da refeição. Aumentou-se o paleio. Aumentaram-se as retinas na forma como olhávamos para as nossas cidades. Pelos olhos deles percebemos: vivíamos num lugar lindo, apesar de termos nascido e crescido a falar mal de nós próprios, dos nossos vizinhos, do nosso país. Afinal havia aqui algo que eles viam e nós não víamos. O sol, a comida, a paz, a lenga-lenga do costume que agora me coíbo de recitar. Foi preciso abrir o nosso país aos estrangeiros para percebermos quem somos. É a isto que se chama globalização? Foram eles que nos escolheram, que nos descobriram, insisto, foram eles que viram. Não fomos nós que soubemos fazer bom alarde do nosso potencial turístico. Saber quem somos não é só uma questão de identidade, e nunca é uma questão de nacionalismo. Sabermos quem somos é uma plataforma para sermos do mundo, e sobretudo melhores cidadãos do mundo. E isso é um gesto quotidiano: por exemplo, ao dizermos “good morning”, de supetão, sem conhecermos as pessoas, sem sabermos de onde são, aqui em Portugal, soa-me ridículo. Ou quando chegamos a um qualquer serviço público e nos tratam por” Sir” ou “Mam”. Nas minhas afortunadas viagens a Cabo Verde, vejo o filme ao contrário, o outro lado do espelho. Andam por lá muitos franceses: gostam de montanhas e gente com sentido de humor. Vão para o destino perfeito. Os franceses são, contemporaneamente, um dos povos mais exploradores. Em grande número, são eles que começam a ir ao novo destino que em breve estará na berra. Já me cruzei com centenas deles em Santiago, São Vicente, Fogo e Santo Antão. Nunca ouvi um único dizer “bom dia”, embora a saudação matinal na língua oficial e em crioulo seja “Bom dia!” Pergunto-me o porquê desta resistência a algo tão simples, esta delicada forma de aproximação ao outro que é um gesto de boa educação e revela alguma inteligência. Ora, se aqui, onde vivemos, nem conseguimos entalhar conversa na nossa própria língua, como se ela fosse “cousa rara” há qualquer coisa estranha ou talvez até uma forma de provincianismo. Há poucos dias, na apresentação do magnífico livro de Juva Batella, “Língua de Fora”, Manuel Monteiro apresentando-o, referia-se assim a provincianismo: “Não saber (ou não querer saber ) o caudal de conhecimento que é anterior a nós, seja a literatura ou qualquer outra forma de cultura.” Sermos cultos, estou convencida, também é conseguir ser natural. Já o dizia Oscar Wilde: “Ser natural é a mais difícil das poses.” Acho realmente que é preciso viajar rapidamente para todos os nossos destinos de sonho e conhecê-los antes que alguém os reconheça como icónicos. Como tudo na vida, não vale a pena esperar por certezas antes de viajar, é preciso partir e ir lá fazer as perguntas antes dos outros. A resposta a estas chama-se aventura. Enquanto isso, se não formos a lado nenhum, tratemos de ser nós próprios aqui (de) onde somos.
RAQUEL OCHOA BOM DIA OU GOOD MORNING?
Sempre disse que não é só viajar. A chave está em viajar o mais rapidamente possível. O mundo muda tão aceleradamente que ir a certos sítios hoje, será completamente diferente a ir daqui a três anos. As aventuras que nos esperam hoje estão em causa amanhã - substituídas por Starbucks e lojas intercontinentais que servem um estar uniformizado, seja ele de bom ou mau gosto. Não vamos longe, veja-se Lisboa. Há poucos anos, quando se encontrava um turista em Lisboa, parecia que estávamos perante alguém que se decidira a explorar a savana africana. Para nós era normal caminhar pela encosta do castelo, descer aos becos de Alfama e tratar de algum assunto numa loja específica no Intendente sem ver um único estrangeiro. E quando aparecia um, ginástica aos sentidos, suscitava um cuidado, quase, por aquela criatura. Saberia desenvencilhar-se, pedir comida, encontrar o caminho para o aeroporto? Metíamos conversa, tínhamos a necessidade intrínseca de saber a jornada até ali e sobretudo o porquê de Portugal ser um destino. Não víamos. Mantinha-se à frente dos nossos olhos e não víamos. Não percebíamos o quão diferentes éramos desse mundo turístico, visitado, intensamente procurado. Paris, Amesterdão, Roma, Londres… A nós ninguém nos queria. Isto era nosso. A nós bastava-nos a certeza de não nos querermos ir embora para justificar a permanência. Mas a verdade é que provavelmente não sabíamos ver a beleza de Lisboa. Sintra e outros pontos do país talvez sejam casos diferentes, no entanto, também se aplica a este tricotar de ideias. Hoje em dia tudo mudou. O turismo, não há dúvida, é essencial. Eles perceberam finalmente tudo o que esta terra tem de genial. Falaram uns com os outros, passaram a mensagem com a urgência de um grande segredo. Venham! Venham todos, gritaram! Aquilo é uma maravilha, uma cidade europeia com cheiro a norte de África, um recanto de culturas intercaladas e em recato miscigenadas, um paraíso para gente civilizada e comilona - um lugar onde todos ainda nos sentimos exploradores sem ter de enfrentar os novos perigos nas pirâmides do Egipto. Vieram tantos que se tornou um desperdício não lhes indicarem os caminhos, afinal de contas, ninguém destes vinha com intenção de dormir num vão de escada ou passar fome. Ninguém tinha um salário abaixo dos mil euros. Os preços subiram porque não raro víamos as reacções destes ingleses, franceses, até gregos, imagine-se, rirem às gargalhadas com o irrisório da soma que lhes chegava num papelhinho ao final da refeição. Aumentou-se o paleio. Aumentaram-se as retinas na forma como olhávamos para as nossas cidades. Pelos olhos deles percebemos: vivíamos num lugar lindo, apesar de termos nascido e crescido a falar mal de nós próprios, dos nossos vizinhos, do nosso país. Afinal havia aqui algo que eles viam e nós não víamos. O sol, a comida, a paz, a lenga-lenga do costume que agora me coíbo de recitar. Foi preciso abrir o nosso país aos estrangeiros para percebermos quem somos. É a isto que se chama globalização? Foram eles que nos escolheram, que nos descobriram, insisto, foram eles que viram. Não fomos nós que soubemos fazer bom alarde do nosso potencial turístico. Saber quem somos não é só uma questão de identidade, e nunca é uma questão de nacionalismo. Sabermos quem somos é uma plataforma para sermos do mundo, e sobretudo melhores cidadãos do mundo. E isso é um gesto quotidiano: por exemplo, ao dizermos “good morning”, de supetão, sem conhecermos as pessoas, sem sabermos de onde são, aqui em Portugal, soa-me ridículo. Ou quando chegamos a um qualquer serviço público e nos tratam por” Sir” ou “Mam”. Nas minhas afortunadas viagens a Cabo Verde, vejo o filme ao contrário, o outro lado do espelho. Andam por lá muitos franceses: gostam de montanhas e gente com sentido de humor. Vão para o destino perfeito. Os franceses são, contemporaneamente, um dos povos mais exploradores. Em grande número, são eles que começam a ir ao novo destino que em breve estará na berra. Já me cruzei com centenas deles em Santiago, São Vicente, Fogo e Santo Antão. Nunca ouvi um único dizer “bom dia”, embora a saudação matinal na língua oficial e em crioulo seja “Bom dia!” Pergunto-me o porquê desta resistência a algo tão simples, esta delicada forma de aproximação ao outro que é um gesto de boa educação e revela alguma inteligência. Ora, se aqui, onde vivemos, nem conseguimos entalhar conversa na nossa própria língua, como se ela fosse “cousa rara” há qualquer coisa estranha ou talvez até uma forma de provincianismo. Há poucos dias, na apresentação do magnífico livro de Juva Batella, “Língua de Fora”, Manuel Monteiro apresentando-o, referia-se assim a provincianismo: “Não saber (ou não querer saber ) o caudal de conhecimento que é anterior a nós, seja a literatura ou qualquer outra forma de cultura.” Sermos cultos, estou convencida, também é conseguir ser natural. Já o dizia Oscar Wilde: “Ser natural é a mais difícil das poses.” Acho realmente que é preciso viajar rapidamente para todos os nossos destinos de sonho e conhecê-los antes que alguém os reconheça como icónicos. Como tudo na vida, não vale a pena esperar por certezas antes de viajar, é preciso partir e ir lá fazer as perguntas antes dos outros. A resposta a estas chama-se aventura. Enquanto isso, se não formos a lado nenhum, tratemos de ser nós próprios aqui (de) onde somos.
RAQUEL OCHOA BOM DIA OU GOOD MORNING?
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Aquilo é uma maravilha, uma cidade europeia com cheiro a norte de África, um recanto de culturas intercaladas e em recato miscigenadas, um paraíso para gente civilizada e comilona - um lugar onde todos ainda nos sentimos exploradores sem ter de enfrentar os novos perigos nas pirâmides do Egipto. Vieram tantos que se tornou um desperdício não lhes indicarem os caminhos, afinal de contas, ninguém destes vinha com intenção de dormir num vão de escada ou passar fome. Ninguém tinha um salário abaixo dos mil euros. Os preços subiram porque não raro víamos as reacções destes ingleses, franceses, até gregos, imagine-se, rirem às gargalhadas com o irrisório da soma que lhes chegava num papelhinho ao final da refeição. Aumentou-se o paleio. Aumentaram-se as retinas na forma como olhávamos para as nossas cidades. Pelos olhos deles percebemos: vivíamos num lugar lindo, apesar de termos nascido e crescido a falar mal de nós próprios, dos nossos vizinhos, do nosso país. Afinal havia aqui algo que eles viam e nós não víamos. O sol, a comida, a paz, a lenga-lenga do costume que agora me coíbo de recitar. Foi preciso abrir o nosso país aos estrangeiros para percebermos quem somos. É a isto que se chama globalização? Foram eles que nos escolheram, que nos descobriram, insisto, foram eles que viram. Não fomos nós que soubemos fazer bom alarde do nosso potencial turístico. Saber quem somos não é só uma questão de identidade, e nunca é uma questão de nacionalismo. Sabermos quem somos é uma plataforma para sermos do mundo, e sobretudo melhores cidadãos do mundo. E isso é um gesto quotidiano: por exemplo, ao dizermos “good morning”, de supetão, sem conhecermos as pessoas, sem sabermos de onde são, aqui em Portugal, soa-me ridículo. Ou quando chegamos a um qualquer serviço público e nos tratam por” Sir” ou “Mam”. Nas minhas afortunadas viagens a Cabo Verde, vejo o filme ao contrário, o outro lado do espelho. Andam por lá muitos franceses: gostam de montanhas e gente com sentido de humor. Vão para o destino perfeito. Os franceses são, contemporaneamente, um dos povos mais exploradores. Em grande número, são eles que começam a ir ao novo destino que em breve estará na berra. Já me cruzei com centenas deles em Santiago, São Vicente, Fogo e Santo Antão. Nunca ouvi um único dizer “bom dia”, embora a saudação matinal na língua oficial e em crioulo seja “Bom dia!” Pergunto-me o porquê desta resistência a algo tão simples, esta delicada forma de aproximação ao outro que é um gesto de boa educação e revela alguma inteligência. Ora, se aqui, onde vivemos, nem conseguimos entalhar conversa na nossa própria língua, como se ela fosse “cousa rara” há qualquer coisa estranha ou talvez até uma forma de provincianismo. Há poucos dias, na apresentação do magnífico livro de Juva Batella, “Língua de Fora”, Manuel Monteiro apresentando-o, referia-se assim a provincianismo: “Não saber (ou não querer saber ) o caudal de conhecimento que é anterior a nós, seja a literatura ou qualquer outra forma de cultura.” Sermos cultos, estou convencida, também é conseguir ser natural. Já o dizia Oscar Wilde: “Ser natural é a mais difícil das poses.” Acho realmente que é preciso viajar rapidamente para todos os nossos destinos de sonho e conhecê-los antes que alguém os reconheça como icónicos. Como tudo na vida, não vale a pena esperar por certezas antes de viajar, é preciso partir e ir lá fazer as perguntas antes dos outros. A resposta a estas chama-se aventura. Enquanto isso, se não formos a lado nenhum, tratemos de ser nós próprios aqui (de) onde somos.