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JOÃO RODIL CHRISTOPHER ISHERWOOD E A GERAÇÃO AUDEN EM SINTRA Ao longo da minha vida tenho definido como particular interesse, na área da investigação local, a produção literária que, ao longo dos séculos, se produziu sobre Sintra. De facto, desde a Antiguidade Clássica aos dias de hoje, muitos foram os autores que deixaram registadas as suas impressões sobre o espaço sintrense, tanto no panorama literário português como estrangeiro. Esse conjunto imenso de obras literárias constitui um importante acervo que muito contribuiu para a construção do imaginário de Sintra, muito divulgou as suas belezas, caracterizou épocas, produziu documentos do mais destacado relevo e foi matéria fundamental na elevação de Sintra a Património Mundial. Muito mais pobre seria Sintra sem as referências de Plínio ou Estrabão, de Alhumini Alimiari ou Ibn Mucana Alcabedac. Que seria da nossa História sem as Crónicas de Fernão Lopes ou o Cancioneiro de Resende? E os autos de Gil Vicente, os escritos de João de Barros ou as estâncias de Camões? Estaria, por certo, incompleto o romantismo de Sintra sem o Glorioso Eden de Byron, as belíssimas descrições de Beckford, a obra de Garrett, a visão de Herculano, os romances de Camilo e de Eça. Este Património Imaterial de Sintra, onde se devem juntar ainda as lendas, o folclore, as tradições e tantas outras coisas, ocupa um lugar proeminente em todos os aspectos da vida, da paisagem e da História de Sintra. É nesta perspectiva – a de coligir e estudar a Literatura referente a Sintra – que apresento aqui esta comunicação, a que dei o título Christopher Isherwood e a Geração Auden em Sintra. É necessário esclarecermos, aos menos avisados, que, em Inglaterra, a geração literária dos anos 30 do século XX, é conhecida como Geração Auden, numa referência clara a W.H. Auden (1907-1973), um dos maiores poetas de sempre e verdadeiro impulsionador de uma nova abordagem literária, os dram poems, e que influenciou muitos dos jovens escritores de então. Contudo, para um melhor enquadramento dos factos que aqui iremos tratar, talvez seja pertinente conhecer melhor o percurso dos autores, e actores, desta estadia por terras do Monte da Lua.
FERNANDO MORAIS GOMES MISSA DAS DEZ EM S.MARTINHO EDUARDO SÉRGIO O OLHO DA LIBÉLULA FILOMENA MARONA BEJA A SENHORA INFANTA EM SINTRA GALOPIM DE CARVALHO PEGADAS NA PRAIA GRANDE DO RODÍZIO
RAQUEL OCHOA BOM DIA OU GOOD MORNING? GONÇALO MOLEIRO "A ARQUITECTURA E O MODO COMO QUEREMOS VIVER" JOÃO RODIL CHRISTOPHER ISHERWOOD E A GERAÇÃO AUDEN EM SINTRA MIGUEL REAL BELÍSSIMO RETRACTO FICCIONAL DO CONVENTO DOS CAPUCHOS LUÍS FREITAS LIBERDADE TOTAL
Christopher Isherwood nasceu a 26 de Agosto de 1904 em Inglaterra, e viria a falecer nos Estados Unidos da América a 4 de Janeiro de 1986, para onde tinha emigrado em 1939, tendo-se naturalizado cidadão americano em 1946. O seu conjunto de contos Adeus a Berlim foram a fonte de inspiração para a famosa peça I Am a Camera e, posteriormente, para o ainda mais célebre filme Cabaret, soberbamente interpretado por Lisa Minelli. Em 1932, Isherwood foi viver para Berlim, juntamente com o seu companheiro Heinz Neddermayer, onde podiam disfrutar de uma maior liberdade no seu relacionamento homossexual. Mas os ventos negros da intolerância já sopravam, em 1935, de forma violenta. O movimento nazi liderado por Adolfo Hitler semeava, então, o terror pelas ruas de Berlim, perseguindo raças, ideologias e modos de vida. Assim, perante este cenário de totalitarismo crescente, os dois companheiros decidem abandonar a cidade alemã, viajando até Antuérpia. É daí que apanham o vapor que os traria a Portugal. Chegados a Lisboa, a 21 de Dezembro desse ano, preferiram rumar a Sintra em busca de uma pacatez que lhes possibilitasse viver em paz. Instalam-se num hotel por duas ou três semanas, até conseguirem alugar uma casa em São Pedro de Sintra, a Villa Alecrim do Norte que, então, pertencia a uma inglesa de nome Mss. Mitchell. Esta casa ainda existe e fica na Rua Albino José Batista (nº 13-15), que faz a ligação entre o Jardim da Vigia e Chão de Meninos, em São Pedro de Sintra. É curioso que o povo, tradicionalmente, chama ao local o Bairro dos Ingleses, certamente porque as propriedades naquela zona pertenceriam, na sua maioria, a cidadãos britânicos. É nesta Villa que Isherwood e Heinz que vão receber os seus amigos vindos de Inglaterra, nomeadamente W.H. Auden e Stephen Spender (1909-1995), este último acompanhado de Tony Hyndman, um organista galês intérprete de música religiosa. A eles juntar-se-ão ainda outros nomes, como o poeta Brian Howard (1905-1958) que morre novo graças ao abuso de drogas e álcool; ou James Stern (1904-1993) escritor irlandês que se notabilizou, sobretudo, pelas suas surpreendentes short stories. Auden e Spender são aqueles que permanecem mais tempo em Sintra. E será aqui, na Villa Alecrim do Norte, que Isherwood escreverá, a meias com W.H. Auden, The Ascent of F6. Também em São Pedro, Christopher Isherwood terá escrito alguns dos contos que dariam o livro Adeus a Berlim. Mas a sua produção literária em Sintra foi mais além. Iniciou a novela Paul is Alone, que mais tarde abandonaria, para regressar ao seu The Lost que, entretanto, deixara de parte. Certo é que estes três grandes vultos da Literatura mundial escreveram em conjunto, durante a permanência de Auden e Spender na casa de Isherwood, de Dezembro de 1935 a Março de 1936, um diário que permaneceu inédito até 2012, quando o filho de Stephen Spender – Mathew Spender – o publicou em Itália, sob o título de Il Diario di Sintra, na editora Barbès de Florença, depois de o ter tentado em Inglaterra e de não ter conseguido o interesse de qualquer editora. Ora, uma tradução para português e respectiva publicação deste Diário de Sintra afigura-se prioritária, quer pela dimensão literária dos seus autores, quer pelos conteúdos, nomeadamente as referências a Sintra. Aliás, julgo tratar-se de uma obra de grande valor cultural, turístico e económico para a região sintrense, já que poderá suscitar a um público anglo-americano uma apetência por Sintra, como o fizeram outras obras ao longo dos tempos. Com a partida dos amigos, em Março de 1936, o casal volta a ficar só em São Pedro. Mas, felizmente, Isherwood vai escrevendo aos amigos, deixando nessa correspondência as suas impressões sobre Sintra e as suas gentes. Note-se, a título de exemplo, um excerto de uma carta enviada a Stephen Spender, datada de 12 de Maio daquele ano: «Villa Alecrim do Norte São Pedro, Sintra May 12 (1936)
JOÃO RODIL CHRISTOPHER ISHERWOOD E A GERAÇÃO AUDEN EM SINTRA Ao longo da minha vida tenho definido como particular interesse, na área da investigação local, a produção literária que, ao longo dos séculos, se produziu sobre Sintra. De facto, desde a Antiguidade Clássica aos dias de hoje, muitos foram os autores que deixaram registadas as suas impressões sobre o espaço sintrense, tanto no panorama literário português como estrangeiro. Esse conjunto imenso de obras literárias constitui um importante acervo que muito contribuiu para a construção do imaginário de Sintra, muito divulgou as suas belezas, caracterizou épocas, produziu documentos do mais destacado relevo e foi matéria fundamental na elevação de Sintra a Património Mundial. Muito mais pobre seria Sintra sem as referências de Plínio ou Estrabão, de Alhumini Alimiari ou Ibn Mucana Alcabedac. Que seria da nossa História sem as Crónicas de Fernão Lopes ou o Cancioneiro de Resende? E os autos de Gil Vicente, os escritos de João de Barros ou as estâncias de Camões? Estaria, por certo, incompleto o romantismo de Sintra sem o Glorioso Eden de Byron, as belíssimas descrições de Beckford, a obra de Garrett, a visão de Herculano, os romances de Camilo e de Eça. Este Património Imaterial de Sintra, onde se devem juntar ainda as lendas, o folclore, as tradições e tantas outras coisas, ocupa um lugar proeminente em todos os aspectos da vida, da paisagem e da História de Sintra. É nesta perspectiva – a de coligir e estudar a Literatura referente a Sintra – que apresento aqui esta comunicação, a que dei o título Christopher Isherwood e a Geração Auden em Sintra. É necessário esclarecermos, aos menos avisados, que, em Inglaterra, a geração literária dos anos 30 do século XX, é conhecida como Geração Auden, numa referência clara a W.H. Auden (1907-1973), um dos maiores poetas de sempre e verdadeiro impulsionador de uma nova abordagem literária, os dram poems, e que influenciou muitos dos jovens escritores de então. Contudo, para um melhor enquadramento dos factos que aqui iremos tratar, talvez seja pertinente conhecer melhor o percurso dos autores, e actores, desta estadia por terras do Monte da Lua.
Christopher Isherwood nasceu a 26 de Agosto de 1904 em Inglaterra, e viria a falecer nos Estados Unidos da América a 4 de Janeiro de 1986, para onde tinha emigrado em 1939, tendo-se naturalizado cidadão americano em 1946. O seu conjunto de contos Adeus a Berlim foram a fonte de inspiração para a famosa peça I Am a Camera e, posteriormente, para o ainda mais célebre filme Cabaret, soberbamente interpretado por Lisa Minelli. Em 1932, Isherwood foi viver para Berlim, juntamente com o seu companheiro Heinz Neddermayer, onde podiam disfrutar de uma maior liberdade no seu relacionamento homossexual. Mas os ventos negros da intolerância já sopravam, em 1935, de forma violenta. O movimento nazi liderado por Adolfo Hitler semeava, então, o terror pelas ruas de Berlim, perseguindo raças, ideologias e modos de vida. Assim, perante este cenário de totalitarismo crescente, os dois companheiros decidem abandonar a cidade alemã, viajando até Antuérpia. É daí que apanham o vapor que os traria a Portugal. Chegados a Lisboa, a 21 de Dezembro desse ano, preferiram rumar a Sintra em busca de uma pacatez que lhes possibilitasse viver em paz. Instalam-se num hotel por duas ou três semanas, até conseguirem alugar uma casa em São Pedro de Sintra, a Villa Alecrim do Norte que, então, pertencia a uma inglesa de nome Mss. Mitchell. Esta casa ainda existe e fica na Rua Albino José Batista (nº 13-15), que faz a ligação entre o Jardim da Vigia e Chão de Meninos, em São Pedro de Sintra. É curioso que o povo, tradicionalmente, chama ao local o Bairro dos Ingleses, certamente porque as propriedades naquela zona pertenceriam, na sua maioria, a cidadãos britânicos. É nesta Villa que Isherwood e Heinz que vão receber os seus amigos vindos de Inglaterra, nomeadamente W.H. Auden e Stephen Spender (1909-1995), este último acompanhado de Tony Hyndman, um organista galês intérprete de música religiosa. A eles juntar-se-ão ainda outros nomes, como o poeta Brian Howard (1905-1958) que morre novo graças ao abuso de drogas e álcool; ou James Stern (1904-1993) escritor irlandês que se notabilizou, sobretudo, pelas suas surpreendentes short stories. Auden e Spender são aqueles que permanecem mais tempo em Sintra. E será aqui, na Villa Alecrim do Norte, que Isherwood escreverá, a meias com W.H. Auden, The Ascent of F6. Também em São Pedro, Christopher Isherwood terá escrito alguns dos contos que dariam o livro Adeus a Berlim. Mas a sua produção literária em Sintra foi mais além. Iniciou a novela Paul is Alone, que mais tarde abandonaria, para regressar ao seu The Lost que, entretanto, deixara de parte. Certo é que estes três grandes vultos da Literatura mundial escreveram em conjunto, durante a permanência de Auden e Spender na casa de Isherwood, de Dezembro de 1935 a Março de 1936, um diário que permaneceu inédito até 2012, quando o filho de Stephen Spender – Mathew Spender – o publicou em Itália, sob o título de Il Diario di Sintra, na editora Barbès de Florença, depois de o ter tentado em Inglaterra e de não ter conseguido o interesse de qualquer editora. Ora, uma tradução para português e respectiva publicação deste Diário de Sintra afigura-se prioritária, quer pela dimensão literária dos seus autores, quer pelos conteúdos, nomeadamente as referências a Sintra. Aliás, julgo tratar-se de uma obra de grande valor cultural, turístico e económico para a região sintrense, já que poderá suscitar a um público anglo-americano uma apetência por Sintra, como o fizeram outras obras ao longo dos tempos. Com a partida dos amigos, em Março de 1936, o casal volta a ficar só em São Pedro. Mas, felizmente, Isherwood vai escrevendo aos amigos, deixando nessa correspondência as suas impressões sobre Sintra e as suas gentes. Note-se, a título de exemplo, um excerto de uma carta enviada a Stephen Spender, datada de 12 de Maio daquele ano: «Villa Alecrim do Norte São Pedro, Sintra May 12 (1936)
JOÃO RODIL CHRISTOPHER ISHERWOOD E A GERAÇÃO AUDEN EM SINTRA Ao longo da minha vida tenho definido como particular interesse, na área da investigação local, a produção literária que, ao longo dos séculos, se produziu sobre Sintra. De facto, desde a Antiguidade Clássica aos dias de hoje, muitos foram os autores que deixaram registadas as suas impressões sobre o espaço sintrense, tanto no panorama literário português como estrangeiro. Esse conjunto imenso de obras literárias constitui um importante acervo que muito contribuiu para a construção do imaginário de Sintra, muito divulgou as suas belezas, caracterizou épocas, produziu documentos do mais destacado relevo e foi matéria fundamental na elevação de Sintra a Património Mundial. Muito mais pobre seria Sintra sem as referências de Plínio ou Estrabão, de Alhumini Alimiari ou Ibn Mucana Alcabedac. Que seria da nossa História sem as Crónicas de Fernão Lopes ou o Cancioneiro de Resende? E os autos de Gil Vicente, os escritos de João de Barros ou as estâncias de Camões? Estaria, por certo, incompleto o romantismo de Sintra sem o Glorioso Eden de Byron, as belíssimas descrições de Beckford, a obra de Garrett, a visão de Herculano, os romances de Camilo e de Eça. Este Património Imaterial de Sintra, onde se devem juntar ainda as lendas, o folclore, as tradições e tantas outras coisas, ocupa um lugar proeminente em todos os aspectos da vida, da paisagem e da História de Sintra. É nesta perspectiva – a de coligir e estudar a Literatura referente a Sintra – que apresento aqui esta comunicação, a que dei o título Christopher Isherwood e a Geração Auden em Sintra. É necessário esclarecermos, aos menos avisados, que, em Inglaterra, a geração literária dos anos 30 do século XX, é conhecida como Geração Auden, numa referência clara a W.H. Auden (1907-1973), um dos maiores poetas de sempre e verdadeiro impulsionador de uma nova abordagem literária, os dram poems, e que influenciou muitos dos jovens escritores de então. Contudo, para um melhor enquadramento dos factos que aqui iremos tratar, talvez seja pertinente conhecer melhor o percurso dos autores, e actores, desta estadia por terras do Monte da Lua.
Christopher Isherwood nasceu a 26 de Agosto de 1904 em Inglaterra, e viria a falecer nos Estados Unidos da América a 4 de Janeiro de 1986, para onde tinha emigrado em 1939, tendo-se naturalizado cidadão americano em 1946. O seu conjunto de contos Adeus a Berlim foram a fonte de inspiração para a famosa peça I Am a Camera e, posteriormente, para o ainda mais célebre filme Cabaret, soberbamente interpretado por Lisa Minelli. Em 1932, Isherwood foi viver para Berlim, juntamente com o seu companheiro Heinz Neddermayer, onde podiam disfrutar de uma maior liberdade no seu relacionamento homossexual. Mas os ventos negros da intolerância já sopravam, em 1935, de forma violenta. O movimento nazi liderado por Adolfo Hitler semeava, então, o terror pelas ruas de Berlim, perseguindo raças, ideologias e modos de vida. Assim, perante este cenário de totalitarismo crescente, os dois companheiros decidem abandonar a cidade alemã, viajando até Antuérpia. É daí que apanham o vapor que os traria a Portugal. Chegados a Lisboa, a 21 de Dezembro desse ano, preferiram rumar a Sintra em busca de uma pacatez que lhes possibilitasse viver em paz. Instalam-se num hotel por duas ou três semanas, até conseguirem alugar uma casa em São Pedro de Sintra, a Villa Alecrim do Norte que, então, pertencia a uma inglesa de nome Mss. Mitchell. Esta casa ainda existe e fica na Rua Albino José Batista (nº 13-15), que faz a ligação entre o Jardim da Vigia e Chão de Meninos, em São Pedro de Sintra. É curioso que o povo, tradicionalmente, chama ao local o Bairro dos Ingleses, certamente porque as propriedades naquela zona pertenceriam, na sua maioria, a cidadãos britânicos. É nesta Villa que Isherwood e Heinz que vão receber os seus amigos vindos de Inglaterra, nomeadamente W.H. Auden e Stephen Spender (1909-1995), este último acompanhado de Tony Hyndman, um organista galês intérprete de música religiosa. A eles juntar-se-ão ainda outros nomes, como o poeta Brian Howard (1905-1958) que morre novo graças ao abuso de drogas e álcool; ou James Stern (1904-1993) escritor irlandês que se notabilizou, sobretudo, pelas suas surpreendentes short stories. Auden e Spender são aqueles que permanecem mais tempo em Sintra. E será aqui, na Villa Alecrim do Norte, que Isherwood escreverá, a meias com W.H. Auden, The Ascent of F6. Também em São Pedro, Christopher Isherwood terá escrito alguns dos contos que dariam o livro Adeus a Berlim. Mas a sua produção literária em Sintra foi mais além. Iniciou a novela Paul is Alone, que mais tarde abandonaria, para regressar ao seu The Lost que, entretanto, deixara de parte. Certo é que estes três grandes vultos da Literatura mundial escreveram em conjunto, durante a permanência de Auden e Spender na casa de Isherwood, de Dezembro de 1935 a Março de 1936, um diário que permaneceu inédito até 2012, quando o filho de Stephen Spender – Mathew Spender – o publicou em Itália, sob o título de Il Diario di Sintra, na editora Barbès de Florença, depois de o ter tentado em Inglaterra e de não ter conseguido o interesse de qualquer editora. Ora, uma tradução para português e respectiva publicação deste Diário de Sintra afigura-se prioritária, quer pela dimensão literária dos seus autores, quer pelos conteúdos, nomeadamente as referências a Sintra. Aliás, julgo tratar-se de uma obra de grande valor cultural, turístico e económico para a região sintrense, já que poderá suscitar a um público anglo-americano uma apetência por Sintra, como o fizeram outras obras ao longo dos tempos. Com a partida dos amigos, em Março de 1936, o casal volta a ficar só em São Pedro. Mas, felizmente, Isherwood vai escrevendo aos amigos, deixando nessa correspondência as suas impressões sobre Sintra e as suas gentes. Note-se, a título de exemplo, um excerto de uma carta enviada a Stephen Spender, datada de 12 de Maio daquele ano: «Villa Alecrim do Norte São Pedro, Sintra May 12 (1936)
JOÃO RODIL CHRISTOPHER ISHERWOOD E A GERAÇÃO AUDEN EM SINTRA Ao longo da minha vida tenho definido como particular interesse, na área da investigação local, a produção literária que, ao longo dos séculos, se produziu sobre Sintra. De facto, desde a Antiguidade Clássica aos dias de hoje, muitos foram os autores que deixaram registadas as suas impressões sobre o espaço sintrense, tanto no panorama literário português como estrangeiro. Esse conjunto imenso de obras literárias constitui um importante acervo que muito contribuiu para a construção do imaginário de Sintra, muito divulgou as suas belezas, caracterizou épocas, produziu documentos do mais destacado relevo e foi matéria fundamental na elevação de Sintra a Património Mundial. Muito mais pobre seria Sintra sem as referências de Plínio ou Estrabão, de Alhumini Alimiari ou Ibn Mucana Alcabedac. Que seria da nossa História sem as Crónicas de Fernão Lopes ou o Cancioneiro de Resende? E os autos de Gil Vicente, os escritos de João de Barros ou as estâncias de Camões? Estaria, por certo, incompleto o romantismo de Sintra sem o Glorioso Eden de Byron, as belíssimas descrições de Beckford, a obra de Garrett, a visão de Herculano, os romances de Camilo e de Eça. Este Património Imaterial de Sintra, onde se devem juntar ainda as lendas, o folclore, as tradições e tantas outras coisas, ocupa um lugar proeminente em todos os aspectos da vida, da paisagem e da História de Sintra. É nesta perspectiva – a de coligir e estudar a Literatura referente a Sintra – que apresento aqui esta comunicação, a que dei o título Christopher Isherwood e a Geração Auden em Sintra. É necessário esclarecermos, aos menos avisados, que, em Inglaterra, a geração literária dos anos 30 do século XX, é conhecida como Geração Auden, numa referência clara a W.H. Auden (1907-1973), um dos maiores poetas de sempre e verdadeiro impulsionador de uma nova abordagem literária, os dram poems, e que influenciou muitos dos jovens escritores de então. Contudo, para um melhor enquadramento dos factos que aqui iremos tratar, talvez seja pertinente conhecer melhor o percurso dos autores, e actores, desta estadia por terras do Monte da Lua.
Christopher Isherwood nasceu a 26 de Agosto de 1904 em Inglaterra, e viria a falecer nos Estados Unidos da América a 4 de Janeiro de 1986, para onde tinha emigrado em 1939, tendo-se naturalizado cidadão americano em 1946. O seu conjunto de contos Adeus a Berlim foram a fonte de inspiração para a famosa peça I Am a Camera e, posteriormente, para o ainda mais célebre filme Cabaret, soberbamente interpretado por Lisa Minelli. Em 1932, Isherwood foi viver para Berlim, juntamente com o seu companheiro Heinz Neddermayer, onde podiam disfrutar de uma maior liberdade no seu relacionamento homossexual. Mas os ventos negros da intolerância já sopravam, em 1935, de forma violenta. O movimento nazi liderado por Adolfo Hitler semeava, então, o terror pelas ruas de Berlim, perseguindo raças, ideologias e modos de vida. Assim, perante este cenário de totalitarismo crescente, os dois companheiros decidem abandonar a cidade alemã, viajando até Antuérpia. É daí que apanham o vapor que os traria a Portugal. Chegados a Lisboa, a 21 de Dezembro desse ano, preferiram rumar a Sintra em busca de uma pacatez que lhes possibilitasse viver em paz. Instalam-se num hotel por duas ou três semanas, até conseguirem alugar uma casa em São Pedro de Sintra, a Villa Alecrim do Norte que, então, pertencia a uma inglesa de nome Mss. Mitchell. Esta casa ainda existe e fica na Rua Albino José Batista (nº 13-15), que faz a ligação entre o Jardim da Vigia e Chão de Meninos, em São Pedro de Sintra. É curioso que o povo, tradicionalmente, chama ao local o Bairro dos Ingleses, certamente porque as propriedades naquela zona pertenceriam, na sua maioria, a cidadãos britânicos. É nesta Villa que Isherwood e Heinz que vão receber os seus amigos vindos de Inglaterra, nomeadamente W.H. Auden e Stephen Spender (1909-1995), este último acompanhado de Tony Hyndman, um organista galês intérprete de música religiosa. A eles juntar-se-ão ainda outros nomes, como o poeta Brian Howard (1905-1958) que morre novo graças ao abuso de drogas e álcool; ou James Stern (1904-1993) escritor irlandês que se notabilizou, sobretudo, pelas suas surpreendentes short stories. Auden e Spender são aqueles que permanecem mais tempo em Sintra. E será aqui, na Villa Alecrim do Norte, que Isherwood escreverá, a meias com W.H. Auden, The Ascent of F6. Também em São Pedro, Christopher Isherwood terá escrito alguns dos contos que dariam o livro Adeus a Berlim. Mas a sua produção literária em Sintra foi mais além. Iniciou a novela Paul is Alone, que mais tarde abandonaria, para regressar ao seu The Lost que, entretanto, deixara de parte. Certo é que estes três grandes vultos da Literatura mundial escreveram em conjunto, durante a permanência de Auden e Spender na casa de Isherwood, de Dezembro de 1935 a Março de 1936, um diário que permaneceu inédito até 2012, quando o filho de Stephen Spender – Mathew Spender – o publicou em Itália, sob o título de Il Diario di Sintra, na editora Barbès de Florença, depois de o ter tentado em Inglaterra e de não ter conseguido o interesse de qualquer editora. Ora, uma tradução para português e respectiva publicação deste Diário de Sintra afigura-se prioritária, quer pela dimensão literária dos seus autores, quer pelos conteúdos, nomeadamente as referências a Sintra. Aliás, julgo tratar-se de uma obra de grande valor cultural, turístico e económico para a região sintrense, já que poderá suscitar a um público anglo-americano uma apetência por Sintra, como o fizeram outras obras ao longo dos tempos. Com a partida dos amigos, em Março de 1936, o casal volta a ficar só em São Pedro. Mas, felizmente, Isherwood vai escrevendo aos amigos, deixando nessa correspondência as suas impressões sobre Sintra e as suas gentes. Note-se, a título de exemplo, um excerto de uma carta enviada a Stephen Spender, datada de 12 de Maio daquele ano: «Villa Alecrim do Norte São Pedro, Sintra May 12 (1936)
JOÃO RODIL CHRISTOPHER ISHERWOOD E A GERAÇÃO AUDEN EM SINTRA Ao longo da minha vida tenho definido como particular interesse, na área da investigação local, a produção literária que, ao longo dos séculos, se produziu sobre Sintra. De facto, desde a Antiguidade Clássica aos dias de hoje, muitos foram os autores que deixaram registadas as suas impressões sobre o espaço sintrense, tanto no panorama literário português como estrangeiro. Esse conjunto imenso de obras literárias constitui um importante acervo que muito contribuiu para a construção do imaginário de Sintra, muito divulgou as suas belezas, caracterizou épocas, produziu documentos do mais destacado relevo e foi matéria fundamental na elevação de Sintra a Património Mundial. Muito mais pobre seria Sintra sem as referências de Plínio ou Estrabão, de Alhumini Alimiari ou Ibn Mucana Alcabedac. Que seria da nossa História sem as Crónicas de Fernão Lopes ou o Cancioneiro de Resende? E os autos de Gil Vicente, os escritos de João de Barros ou as estâncias de Camões? Estaria, por certo, incompleto o romantismo de Sintra sem o Glorioso Eden de Byron, as belíssimas descrições de Beckford, a obra de Garrett, a visão de Herculano, os romances de Camilo e de Eça. Este Património Imaterial de Sintra, onde se devem juntar ainda as lendas, o folclore, as tradições e tantas outras coisas, ocupa um lugar proeminente em todos os aspectos da vida, da paisagem e da História de Sintra. É nesta perspectiva – a de coligir e estudar a Literatura referente a Sintra – que apresento aqui esta comunicação, a que dei o título Christopher Isherwood e a Geração Auden em Sintra. É necessário esclarecermos, aos menos avisados, que, em Inglaterra, a geração literária dos anos 30 do século XX, é conhecida como Geração Auden, numa referência clara a W.H. Auden (1907-1973), um dos maiores poetas de sempre e verdadeiro impulsionador de uma nova abordagem literária, os dram poems, e que influenciou muitos dos jovens escritores de então. Contudo, para um melhor enquadramento dos factos que aqui iremos tratar, talvez seja pertinente conhecer melhor o percurso dos autores, e actores, desta estadia por terras do Monte da Lua.
Christopher Isherwood nasceu a 26 de Agosto de 1904 em Inglaterra, e viria a falecer nos Estados Unidos da América a 4 de Janeiro de 1986, para onde tinha emigrado em 1939, tendo-se naturalizado cidadão americano em 1946. O seu conjunto de contos Adeus a Berlim foram a fonte de inspiração para a famosa peça I Am a Camera e, posteriormente, para o ainda mais célebre filme Cabaret, soberbamente interpretado por Lisa Minelli. Em 1932, Isherwood foi viver para Berlim, juntamente com o seu companheiro Heinz Neddermayer, onde podiam disfrutar de uma maior liberdade no seu relacionamento homossexual. Mas os ventos negros da intolerância já sopravam, em 1935, de forma violenta. O movimento nazi liderado por Adolfo Hitler semeava, então, o terror pelas ruas de Berlim, perseguindo raças, ideologias e modos de vida. Assim, perante este cenário de totalitarismo crescente, os dois companheiros decidem abandonar a cidade alemã, viajando até Antuérpia. É daí que apanham o vapor que os traria a Portugal. Chegados a Lisboa, a 21 de Dezembro desse ano, preferiram rumar a Sintra em busca de uma pacatez que lhes possibilitasse viver em paz. Instalam-se num hotel por duas ou três semanas, até conseguirem alugar uma casa em São Pedro de Sintra, a Villa Alecrim do Norte que, então, pertencia a uma inglesa de nome Mss. Mitchell. Esta casa ainda existe e fica na Rua Albino José Batista (nº 13-15), que faz a ligação entre o Jardim da Vigia e Chão de Meninos, em São Pedro de Sintra. É curioso que o povo, tradicionalmente, chama ao local o Bairro dos Ingleses, certamente porque as propriedades naquela zona pertenceriam, na sua maioria, a cidadãos britânicos. É nesta Villa que Isherwood e Heinz que vão receber os seus amigos vindos de Inglaterra, nomeadamente W.H. Auden e Stephen Spender (1909-1995), este último acompanhado de Tony Hyndman, um organista galês intérprete de música religiosa. A eles juntar-se-ão ainda outros nomes, como o poeta Brian Howard (1905-1958) que morre novo graças ao abuso de drogas e álcool; ou James Stern (1904-1993) escritor irlandês que se notabilizou, sobretudo, pelas suas surpreendentes short stories. Auden e Spender são aqueles que permanecem mais tempo em Sintra. E será aqui, na Villa Alecrim do Norte, que Isherwood escreverá, a meias com W.H. Auden, The Ascent of F6. Também em São Pedro, Christopher Isherwood terá escrito alguns dos contos que dariam o livro Adeus a Berlim. Mas a sua produção literária em Sintra foi mais além. Iniciou a novela Paul is Alone, que mais tarde abandonaria, para regressar ao seu The Lost que, entretanto, deixara de parte. Certo é que estes três grandes vultos da Literatura mundial escreveram em conjunto, durante a permanência de Auden e Spender na casa de Isherwood, de Dezembro de 1935 a Março de 1936, um diário que permaneceu inédito até 2012, quando o filho de Stephen Spender – Mathew Spender – o publicou em Itália, sob o título de Il Diario di Sintra, na editora Barbès de Florença, depois de o ter tentado em Inglaterra e de não ter conseguido o interesse de qualquer editora. Ora, uma tradução para português e respectiva publicação deste Diário de Sintra afigura-se prioritária, quer pela dimensão literária dos seus autores, quer pelos conteúdos, nomeadamente as referências a Sintra. Aliás, julgo tratar-se de uma obra de grande valor cultural, turístico e económico para a região sintrense, já que poderá suscitar a um público anglo-americano uma apetência por Sintra, como o fizeram outras obras ao longo dos tempos. Com a partida dos amigos, em Março de 1936, o casal volta a ficar só em São Pedro. Mas, felizmente, Isherwood vai escrevendo aos amigos, deixando nessa correspondência as suas impressões sobre Sintra e as suas gentes. Note-se, a título de exemplo, um excerto de uma carta enviada a Stephen Spender, datada de 12 de Maio daquele ano: «Villa Alecrim do Norte São Pedro, Sintra May 12 (1936)
JOÃO RODIL CHRISTOPHER ISHERWOOD E A GERAÇÃO AUDEN EM SINTRA
Ao longo da minha vida tenho definido como particular interesse, na área da investigação local, a produção literária que, ao longo dos séculos, se produziu sobre Sintra. De facto, desde a Antiguidade Clássica aos dias de hoje, muitos foram os autores que deixaram registadas as suas impressões sobre o espaço sintrense, tanto no panorama literário português como estrangeiro. Esse conjunto imenso de obras literárias constitui um importante acervo que muito contribuiu para a construção do imaginário de Sintra, muito divulgou as suas belezas, caracterizou épocas, produziu documentos do mais destacado relevo e foi matéria fundamental na elevação de Sintra a Património Mundial. Muito mais pobre seria Sintra sem as referências de Plínio ou Estrabão, de Alhumini Alimiari ou Ibn Mucana Alcabedac. Que seria da nossa História sem as Crónicas de Fernão Lopes ou o Cancioneiro de Resende? E os autos de Gil Vicente, os escritos de João de Barros ou as estâncias de Camões? Estaria, por certo, incompleto o romantismo de Sintra sem o Glorioso Eden de Byron, as belíssimas descrições de Beckford, a obra de Garrett, a visão de Herculano, os romances de Camilo e de Eça. Este Património Imaterial de Sintra, onde se devem juntar ainda as lendas, o folclore, as tradições e tantas outras coisas, ocupa um lugar proeminente em todos os aspectos da vida, da paisagem e da História de Sintra. É nesta perspectiva – a de coligir e estudar a Literatura referente a Sintra – que apresento aqui esta comunicação, a que dei o título Christopher Isherwood e a Geração Auden em Sintra. É necessário esclarecermos, aos menos avisados, que, em Inglaterra, a geração literária dos anos 30 do século XX, é conhecida como Geração Auden, numa referência clara a W.H. Auden (1907-1973), um dos maiores poetas de sempre e verdadeiro impulsionador de uma nova abordagem literária, os dram poems, e que influenciou muitos dos jovens escritores de então. Contudo, para um melhor enquadramento dos factos que aqui iremos tratar, talvez seja pertinente conhecer melhor o percurso dos autores, e actores, desta estadia por terras do Monte da Lua.
Christopher Isherwood nasceu a 26 de Agosto de 1904 em Inglaterra, e viria a falecer nos Estados Unidos da América a 4 de Janeiro de 1986, para onde tinha emigrado em 1939, tendo-se naturalizado cidadão americano em 1946. O seu conjunto de contos Adeus a Berlim foram a fonte de inspiração para a famosa peça I Am a Camera e, posteriormente, para o ainda mais célebre filme Cabaret, soberbamente interpretado por Lisa Minelli. Em 1932, Isherwood foi viver para Berlim, juntamente com o seu companheiro Heinz Neddermayer, onde podiam disfrutar de uma maior liberdade no seu relacionamento homossexual. Mas os ventos negros da intolerância já sopravam, em 1935, de forma violenta. O movimento nazi liderado por Adolfo Hitler semeava, então, o terror pelas ruas de Berlim, perseguindo raças, ideologias e modos de vida. Assim, perante este cenário de totalitarismo crescente, os dois companheiros decidem abandonar a cidade alemã, viajando até Antuérpia. É daí que apanham o vapor que os traria a Portugal. Chegados a Lisboa, a 21 de Dezembro desse ano, preferiram rumar a Sintra em busca de uma pacatez que lhes possibilitasse viver em paz. Instalam-se num hotel por duas ou três semanas, até conseguirem alugar uma casa em São Pedro de Sintra, a Villa Alecrim do Norte que, então, pertencia a uma inglesa de nome Mss. Mitchell. Esta casa ainda existe e fica na Rua Albino José Batista (nº 13-15), que faz a ligação entre o Jardim da Vigia e Chão de Meninos, em São Pedro de Sintra. É curioso que o povo, tradicionalmente, chama ao local o Bairro dos Ingleses, certamente porque as propriedades naquela zona pertenceriam, na sua maioria, a cidadãos britânicos. É nesta Villa que Isherwood e Heinz que vão receber os seus amigos vindos de Inglaterra, nomeadamente W.H. Auden e Stephen Spender (1909-1995), este último acompanhado de Tony Hyndman, um organista galês intérprete de música religiosa. A eles juntar-se-ão ainda outros nomes, como o poeta Brian Howard (1905-1958) que morre novo graças ao abuso de drogas e álcool; ou James Stern (1904-1993) escritor irlandês que se notabilizou, sobretudo, pelas suas surpreendentes short stories. Auden e Spender são aqueles que permanecem mais tempo em Sintra. E será aqui, na Villa Alecrim do Norte, que Isherwood escreverá, a meias com W.H. Auden, The Ascent of F6. Também em São Pedro, Christopher Isherwood terá escrito alguns dos contos que dariam o livro Adeus a Berlim. Mas a sua produção literária em Sintra foi mais além. Iniciou a novela Paul is Alone, que mais tarde abandonaria, para regressar ao seu The Lost que, entretanto, deixara de parte. Certo é que estes três grandes vultos da Literatura mundial escreveram em conjunto, durante a permanência de Auden e Spender na casa de Isherwood, de Dezembro de 1935 a Março de 1936, um diário que permaneceu inédito até 2012, quando o filho de Stephen Spender – Mathew Spender – o publicou em Itália, sob o título de Il Diario di Sintra, na editora Barbès de Florença, depois de o ter tentado em Inglaterra e de não ter conseguido o interesse de qualquer editora. Ora, uma tradução para português e respectiva publicação deste Diário de Sintra afigura-se prioritária, quer pela dimensão literária dos seus autores, quer pelos conteúdos, nomeadamente as referências a Sintra. Aliás, julgo tratar-se de uma obra de grande valor cultural, turístico e económico para a região sintrense, já que poderá suscitar a um público anglo-americano uma apetência por Sintra, como o fizeram outras obras ao longo dos tempos. Com a partida dos amigos, em Março de 1936, o casal volta a ficar só em São Pedro. Mas, felizmente, Isherwood vai escrevendo aos amigos, deixando nessa correspondência as suas impressões sobre Sintra e as suas gentes. Note-se, a título de exemplo, um excerto de uma carta enviada a Stephen Spender, datada de 12 de Maio daquele ano: «Villa Alecrim do Norte São Pedro, Sintra May 12 (1936)