GONÇALO MOLEIRO "FALAR DE ARQUITECTURA"
FERNANDO MORAIS GOMES MISSA DAS DEZ EM S.MARTINHO EDUARDO SÉRGIO O OLHO DA LIBÉLULA FILOMENA MARONA BEJA A SENHORA INFANTA EM SINTRA GALOPIM DE CARVALHO PEGADAS NA PRAIA GRANDE DO RODÍZIO
Numa altura em que se volta a debater a quem compete a prática da arquitectura, num enorme passo atrás no que à qualidade do ambiente que nos rodeia diz respeito, importa perceber em que consiste este ofício - arte para uns, ciência para outros - e a sua importância para o Homem e para a cidade. Falar de arquitectura é, usualmente, sinónimo de uma mera expressão do gosto pessoal, numa constante citação de edifícios dos quais se gosta ou não, reduzindo o discurso a questões estéticas e desconectando-o da temática da cidade e da vida. Assiste-se, assim, a uma abordagem à Arquitectura semelhante ao olhar sobre um desenho ou uma pintura, como se um projecto materializasse apenas a vontade de quem lhe deu corpo, num exercício solitário e desprovido de obstáculos. A arquitectura distancia-se por completo desta liberdade meramente criativa, procurando a resolução de problemas - legais, relativos ao modo de vida das pessoas, à organização espacial, ao território, às heranças do passado e requisitos para o futuro - e visando apresentar uma solução válida para os vários temas e entidades envolvidas. A criatividade está presente no modo como se contornam os inúmeros obstáculos, mantendo a ideia que move, juntos, a equipa projectista e o cliente. Interessa compreender, neste sentido, que, ao contrário de um desenho, um projecto obedece a inúmeras regras e condicionantes. Este facto é o suficiente para afastar por completo a arquitectura das artes plásticas. Como se não bastasse, quando chega ao fim, o projecto ainda está inacabado. Isto porque precisa de se encher de vida, de pessoas, e o seu objectivo é que estas se sintam bem e que os nossos edifícios e cidades reflictam o modo como vivemos e, essencialmente, como queremos viver. “[…] Qualquer um pode desligar o rádio e abandonar os concertos, não gostar de cinema e de teatro e não ler um livro, mas ninguém pode fechar os olhos diante das construções que constituem o palco da vida citadina e trazem a marca do homem no campo e na paisagem.” Bruno Zevi A arquitectura pressupõe, assim, uma enorme responsabilidade. Responsabilidade social, para com a cidade, para com o planeta, para com a vida. Podemos considerar que a arquitectura é uma ponte entre o Homem e o mundo, tornando-o habitável. E o habitar pressupõe conforto e segurança. Encontrar este refúgio num quarto, numa casa ou num espaço público está, ao contrário do que muitas vezes se diz, ao alcance de todos. A arquitectura não é uma prática inacessível, apesar de ser muitas vezes encarada desse modo. É, sim, uma prática necessária e indubitavelmente benéfica, um trabalho conjunto cujo objectivo é possibilitar que todos vivamos melhor, experienciando edifícios e cidades que contribuam para que a nossa existência seja o mais prazerosa possível. É essencial, neste sentido, que nos identifiquemos com o sítio onde vivemos. E a arquitectura, naturalmente a par de muitas outras disciplinas, é inequivocamente importante neste contexto. Muitas das nossas memórias estão, aliás, relacionadas com espaço. Isto significa que os lugares que habitamos participam activamente na construção da nossa história. Como será a nossa vida se a arquitectura não tiver qualidade, se não tivermos consciência da sua importância? Torna-se fulcral, neste momento, olhar a envolvente construída de um modo crítico, visando melhorar os espaços que nos circundam e que tanto dizem sobre o nosso dia-a-dia. Da casa à cidade. Porque aceitar a sua constante mutação, numa criação sucessiva de camadas de história, é simultaneamente compreender o passado e construir o futuro, adaptando os espaços ao modo como pretendemos viver. Gonçalo Moleiro

Revista cultural de Sintra

RAQUEL OCHOA BOM DIA OU GOOD MORNING? GONÇALO MOLEIRO "A ARQUITECTURA E O MODO COMO QUEREMOS VIVER" JOÃO RODIL CHRISTOPHER ISHERWOOD E A GERAÇÃO AUDEN EM SINTRA MIGUEL REAL BELÍSSIMO RETRACTO FICCIONAL DO CONVENTO DOS CAPUCHOS

Copyright © 2017 João Lourenço

GONÇALO MOLEIRO "FALAR DE ARQUITECTURA"
FERNANDO MORAIS GOMES MISSA DAS DEZ EM S.MARTINHO EDUARDO SÉRGIO O OLHO DA LIBÉLULA FILOMENA MARONA BEJA A SENHORA INFANTA EM SINTRA GALOPIM DE CARVALHO PEGADAS NA PRAIA GRANDE DO RODÍZIO
Numa altura em que se volta a debater a quem compete a prática da arquitectura, num enorme passo atrás no que à qualidade do ambiente que nos rodeia diz respeito, importa perceber em que consiste este ofício - arte para uns, ciência para outros - e a sua importância para o Homem e para a cidade. Falar de arquitectura é, usualmente, sinónimo de uma mera expressão do gosto pessoal, numa constante citação de edifícios dos quais se gosta ou não, reduzindo o discurso a questões estéticas e desconectando-o da temática da cidade e da vida. Assiste-se, assim, a uma abordagem à Arquitectura semelhante ao olhar sobre um desenho ou uma pintura, como se um projecto materializasse apenas a vontade de quem lhe deu corpo, num exercício solitário e desprovido de obstáculos. A arquitectura distancia-se por completo desta liberdade meramente criativa, procurando a resolução de problemas - legais, relativos ao modo de vida das pessoas, à organização espacial, ao território, às heranças do passado e requisitos para o futuro - e visando apresentar uma solução válida para os vários temas e entidades envolvidas. A criatividade está presente no modo como se contornam os inúmeros obstáculos, mantendo a ideia que move, juntos, a equipa projectista e o cliente. Interessa compreender, neste sentido, que, ao contrário de um desenho, um projecto obedece a inúmeras regras e condicionantes. Este facto é o suficiente para afastar por completo a arquitectura das artes plásticas. Como se não bastasse, quando chega ao fim, o projecto ainda está inacabado. Isto porque precisa de se encher de vida, de pessoas, e o seu objectivo é que estas se sintam bem e que os nossos edifícios e cidades reflictam o modo como vivemos e, essencialmente, como queremos viver. “[…] Qualquer um pode desligar o rádio e abandonar os concertos, não gostar de cinema e de teatro e não ler um livro, mas ninguém pode fechar os olhos diante das construções que constituem o palco da vida citadina e trazem a marca do homem no campo e na paisagem.” Bruno Zevi A arquitectura pressupõe, assim, uma enorme responsabilidade. Responsabilidade social, para com a cidade, para com o planeta, para com a vida. Podemos considerar que a arquitectura é uma ponte entre o Homem e o mundo, tornando-o habitável. E o habitar pressupõe conforto e segurança. Encontrar este refúgio num quarto, numa casa ou num espaço público está, ao contrário do que muitas vezes se diz, ao alcance de todos. A arquitectura não é uma prática inacessível, apesar de ser muitas vezes encarada desse modo. É, sim, uma prática necessária e indubitavelmente benéfica, um trabalho conjunto cujo objectivo é possibilitar que todos vivamos melhor, experienciando edifícios e cidades que contribuam para que a nossa existência seja o mais prazerosa possível. É essencial, neste sentido, que nos identifiquemos com o sítio onde vivemos. E a arquitectura, naturalmente a par de muitas outras disciplinas, é inequivocamente importante neste contexto. Muitas das nossas memórias estão, aliás, relacionadas com espaço. Isto significa que os lugares que habitamos participam activamente na construção da nossa história. Como será a nossa vida se a arquitectura não tiver qualidade, se não tivermos consciência da sua importância? Torna-se fulcral, neste momento, olhar a envolvente construída de um modo crítico, visando melhorar os espaços que nos circundam e que tanto dizem sobre o nosso dia-a-dia. Da casa à cidade. Porque aceitar a sua constante mutação, numa criação sucessiva de camadas de história, é simultaneamente compreender o passado e construir o futuro, adaptando os espaços ao modo como pretendemos viver. Gonçalo Moleiro
RAQUEL OCHOA BOM DIA OU GOOD MORNING? GONÇALO MOLEIRO "A ARQUITECTURA E O MODO COMO QUEREMOS VIVER" JOÃO RODIL CHRISTOPHER ISHERWOOD E A GERAÇÃO AUDEN EM SINTRA MIGUEL REAL BELÍSSIMO RETRACTO FICCIONAL DO CONVENTO DOS CAPUCHOS
GONÇALO MOLEIRO "FALAR DE ARQUITECTURA"
Numa altura em que se volta a debater a quem compete a prática da arquitectura, num enorme passo atrás no que à qualidade do ambiente que nos rodeia diz respeito, importa perceber em que consiste este ofício - arte para uns, ciência para outros - e a sua importância para o Homem e para a cidade. Falar de arquitectura é, usualmente, sinónimo de uma mera expressão do gosto pessoal, numa constante citação de edifícios dos quais se gosta ou não, reduzindo o discurso a questões estéticas e desconectando-o da temática da cidade e da vida. Assiste-se, assim, a uma abordagem à Arquitectura semelhante ao olhar sobre um desenho ou uma pintura, como se um projecto materializasse apenas a vontade de quem lhe deu corpo, num exercício solitário e desprovido de obstáculos. A arquitectura distancia-se por completo desta liberdade meramente criativa, procurando a resolução de problemas - legais, relativos ao modo de vida das pessoas, à organização espacial, ao território, às heranças do passado e requisitos para o futuro - e visando apresentar uma solução válida para os vários temas e entidades envolvidas. A criatividade está presente no modo como se contornam os inúmeros obstáculos, mantendo a ideia que move, juntos, a equipa projectista e o cliente. Interessa compreender, neste sentido, que, ao contrário de um desenho, um projecto obedece a inúmeras regras e condicionantes. Este facto é o suficiente para afastar por completo a arquitectura das artes plásticas. Como se não bastasse, quando chega ao fim, o projecto ainda está inacabado. Isto porque precisa de se encher de vida, de pessoas, e o seu objectivo é que estas se sintam bem e que os nossos edifícios e cidades reflictam o modo como vivemos e, essencialmente, como queremos viver. “[…] Qualquer um pode desligar o rádio e abandonar os concertos, não gostar de cinema e de teatro e não ler um livro, mas ninguém pode fechar os olhos diante das construções que constituem o palco da vida citadina e trazem a marca do homem no campo e na paisagem.” Bruno Zevi A arquitectura pressupõe, assim, uma enorme responsabilidade. Responsabilidade social, para com a cidade, para com o planeta, para com a vida. Podemos considerar que a arquitectura é uma ponte entre o Homem e o mundo, tornando-o habitável. E o habitar pressupõe conforto e segurança. Encontrar este refúgio num quarto, numa casa ou num espaço público está, ao contrário do que muitas vezes se diz, ao alcance de todos. A arquitectura não é uma prática inacessível, apesar de ser muitas vezes encarada desse modo. É, sim, uma prática necessária e indubitavelmente benéfica, um trabalho conjunto cujo objectivo é possibilitar que todos vivamos melhor, experienciando edifícios e cidades que contribuam para que a nossa existência seja o mais prazerosa possível. É essencial, neste sentido, que nos identifiquemos com o sítio onde vivemos. E a arquitectura, naturalmente a par de muitas outras disciplinas, é inequivocamente importante neste contexto. Muitas das nossas memórias estão, aliás, relacionadas com espaço. Isto significa que os lugares que habitamos participam activamente na construção da nossa história. Como será a nossa vida se a arquitectura não tiver qualidade, se não tivermos consciência da sua importância? Torna-se fulcral, neste momento, olhar a envolvente construída de um modo crítico, visando melhorar os espaços que nos circundam e que tanto dizem sobre o nosso dia-a-dia. Da casa à cidade. Porque aceitar a sua constante mutação, numa criação sucessiva de camadas de história, é simultaneamente compreender o passado e construir o futuro, adaptando os espaços ao modo como pretendemos viver. Gonçalo Moleiro
GONÇALO MOLEIRO "FALAR DE ARQUITECTURA"
Numa altura em que se volta a debater a quem compete a prática da arquitectura, num enorme passo atrás no que à qualidade do ambiente que nos rodeia diz respeito, importa perceber em que consiste este ofício - arte para uns, ciência para outros - e a sua importância para o Homem e para a cidade. Falar de arquitectura é, usualmente, sinónimo de uma mera expressão do gosto pessoal, numa constante citação de edifícios dos quais se gosta ou não, reduzindo o discurso a questões estéticas e desconectando-o da temática da cidade e da vida. Assiste-se, assim, a uma abordagem à Arquitectura semelhante ao olhar sobre um desenho ou uma pintura, como se um projecto materializasse apenas a vontade de quem lhe deu corpo, num exercício solitário e desprovido de obstáculos. A arquitectura distancia-se por completo desta liberdade meramente criativa, procurando a resolução de problemas - legais, relativos ao modo de vida das pessoas, à organização espacial, ao território, às heranças do passado e requisitos para o futuro - e visando apresentar uma solução válida para os vários temas e entidades envolvidas. A criatividade está presente no modo como se contornam os inúmeros obstáculos, mantendo a ideia que move, juntos, a equipa projectista e o cliente. Interessa compreender, neste sentido, que, ao contrário de um desenho, um projecto obedece a inúmeras regras e condicionantes. Este facto é o suficiente para afastar por completo a arquitectura das artes plásticas. Como se não bastasse, quando chega ao fim, o projecto ainda está inacabado. Isto porque precisa de se encher de vida, de pessoas, e o seu objectivo é que estas se sintam bem e que os nossos edifícios e cidades reflictam o modo como vivemos e, essencialmente, como queremos viver. “[…] Qualquer um pode desligar o rádio e abandonar os concertos, não gostar de cinema e de teatro e não ler um livro, mas ninguém pode fechar os olhos diante das construções que constituem o palco da vida citadina e trazem a marca do homem no campo e na paisagem.” Bruno Zevi A arquitectura pressupõe, assim, uma enorme responsabilidade. Responsabilidade social, para com a cidade, para com o planeta, para com a vida. Podemos considerar que a arquitectura é uma ponte entre o Homem e o mundo, tornando-o habitável. E o habitar pressupõe conforto e segurança. Encontrar este refúgio num quarto, numa casa ou num espaço público está, ao contrário do que muitas vezes se diz, ao alcance de todos. A arquitectura não é uma prática inacessível, apesar de ser muitas vezes encarada desse modo. É, sim, uma prática necessária e indubitavelmente benéfica, um trabalho conjunto cujo objectivo é possibilitar que todos vivamos melhor, experienciando edifícios e cidades que contribuam para que a nossa existência seja o mais prazerosa possível. É essencial, neste sentido, que nos identifiquemos com o sítio onde vivemos. E a arquitectura, naturalmente a par de muitas outras disciplinas, é inequivocamente importante neste contexto. Muitas das nossas memórias estão, aliás, relacionadas com espaço. Isto significa que os lugares que habitamos participam activamente na construção da nossa história. Como será a nossa vida se a arquitectura não tiver qualidade, se não tivermos consciência da sua importância? Torna-se fulcral, neste momento, olhar a envolvente construída de um modo crítico, visando melhorar os espaços que nos circundam e que tanto dizem sobre o nosso dia-a-dia. Da casa à cidade. Porque aceitar a sua constante mutação, numa criação sucessiva de camadas de história, é simultaneamente compreender o passado e construir o futuro, adaptando os espaços ao modo como pretendemos viver. Gonçalo Moleiro
GONÇALO MOLEIRO "FALAR DE ARQUITECTURA"
Numa altura em que se volta a debater a quem compete a prática da arquitectura, num enorme passo atrás no que à qualidade do ambiente que nos rodeia diz respeito, importa perceber em que consiste este ofício - arte para uns, ciência para outros - e a sua importância para o Homem e para a cidade. Falar de arquitectura é, usualmente, sinónimo de uma mera expressão do gosto pessoal, numa constante citação de edifícios dos quais se gosta ou não, reduzindo o discurso a questões estéticas e desconectando-o da temática da cidade e da vida. Assiste-se, assim, a uma abordagem à Arquitectura semelhante ao olhar sobre um desenho ou uma pintura, como se um projecto materializasse apenas a vontade de quem lhe deu corpo, num exercício solitário e desprovido de obstáculos. A arquitectura distancia-se por completo desta liberdade meramente criativa, procurando a resolução de problemas - legais, relativos ao modo de vida das pessoas, à organização espacial, ao território, às heranças do passado e requisitos para o futuro - e visando apresentar uma solução válida para os vários temas e entidades envolvidas. A criatividade está presente no modo como se contornam os inúmeros obstáculos, mantendo a ideia que move, juntos, a equipa projectista e o cliente. Interessa compreender, neste sentido, que, ao contrário de um desenho, um projecto obedece a inúmeras regras e condicionantes. Este facto é o suficiente para afastar por completo a arquitectura das artes plásticas. Como se não bastasse, quando chega ao fim, o projecto ainda está inacabado. Isto porque precisa de se encher de vida, de pessoas, e o seu objectivo é que estas se sintam bem e que os nossos edifícios e cidades reflictam o modo como vivemos e, essencialmente, como queremos viver. “[…] Qualquer um pode desligar o rádio e abandonar os concertos, não gostar de cinema e de teatro e não ler um livro, mas ninguém pode fechar os olhos diante das construções que constituem o palco da vida citadina e trazem a marca do homem no campo e na paisagem.” Bruno Zevi A arquitectura pressupõe, assim, uma enorme responsabilidade. Responsabilidade social, para com a cidade, para com o planeta, para com a vida. Podemos considerar que a arquitectura é uma ponte entre o Homem e o mundo, tornando-o habitável. E o habitar pressupõe conforto e segurança. Encontrar este refúgio num quarto, numa casa ou num espaço público está, ao contrário do que muitas vezes se diz, ao alcance de todos. A arquitectura não é uma prática inacessível, apesar de ser muitas vezes encarada desse modo. É, sim, uma prática necessária e indubitavelmente benéfica, um trabalho conjunto cujo objectivo é possibilitar que todos vivamos melhor, experienciando edifícios e cidades que contribuam para que a nossa existência seja o mais prazerosa possível. É essencial, neste sentido, que nos identifiquemos com o sítio onde vivemos. E a arquitectura, naturalmente a par de muitas outras disciplinas, é inequivocamente importante neste contexto. Muitas das nossas memórias estão, aliás, relacionadas com espaço. Isto significa que os lugares que habitamos participam activamente na construção da nossa história. Como será a nossa vida se a arquitectura não tiver qualidade, se não tivermos consciência da sua importância? Torna-se fulcral, neste momento, olhar a envolvente construída de um modo crítico, visando melhorar os espaços que nos circundam e que tanto dizem sobre o nosso dia-a-dia. Da casa à cidade. Porque aceitar a sua constante mutação, numa criação sucessiva de camadas de história, é simultaneamente compreender o passado e construir o futuro, adaptando os espaços ao modo como pretendemos viver. Gonçalo Moleiro
GONÇALO MOLEIRO "FALAR DE ARQUITECTURA"
Numa altura em que se volta a debater a quem compete a prática da arquitectura, num enorme passo atrás no que à qualidade do ambiente que nos rodeia diz respeito, importa perceber em que consiste este ofício - arte para uns, ciência para outros - e a sua importância para o Homem e para a cidade. Falar de arquitectura é, usualmente, sinónimo de uma mera expressão do gosto pessoal, numa constante citação de edifícios dos quais se gosta ou não, reduzindo o discurso a questões estéticas e desconectando-o da temática da cidade e da vida. Assiste-se, assim, a uma abordagem à Arquitectura semelhante ao olhar sobre um desenho ou uma pintura, como se um projecto materializasse apenas a vontade de quem lhe deu corpo, num exercício solitário e desprovido de obstáculos. A arquitectura distancia-se por completo desta liberdade meramente criativa, procurando a resolução de problemas - legais, relativos ao modo de vida das pessoas, à organização espacial, ao território, às heranças do passado e requisitos para o futuro - e visando apresentar uma solução válida para os vários temas e entidades envolvidas. A criatividade está presente no modo como se contornam os inúmeros obstáculos, mantendo a ideia que move, juntos, a equipa projectista e o cliente. Interessa compreender, neste sentido, que, ao contrário de um desenho, um projecto obedece a inúmeras regras e condicionantes. Este facto é o suficiente para afastar por completo a arquitectura das artes plásticas. Como se não bastasse, quando chega ao fim, o projecto ainda está inacabado. Isto porque precisa de se encher de vida, de pessoas, e o seu objectivo é que estas se sintam bem e que os nossos edifícios e cidades reflictam o modo como vivemos e, essencialmente, como queremos viver. “[…] Qualquer um pode desligar o rádio e abandonar os concertos, não gostar de cinema e de teatro e não ler um livro, mas ninguém pode fechar os olhos diante das construções que constituem o palco da vida citadina e trazem a marca do homem no campo e na paisagem.” Bruno Zevi A arquitectura pressupõe, assim, uma enorme responsabilidade. Responsabilidade social, para com a cidade, para com o planeta, para com a vida. Podemos considerar que a arquitectura é uma ponte entre o Homem e o mundo, tornando-o habitável. E o habitar pressupõe conforto e segurança. Encontrar este refúgio num quarto, numa casa ou num espaço público está, ao contrário do que muitas vezes se diz, ao alcance de todos. A arquitectura não é uma prática inacessível, apesar de ser muitas vezes encarada desse modo. É, sim, uma prática necessária e indubitavelmente benéfica, um trabalho conjunto cujo objectivo é possibilitar que todos vivamos melhor, experienciando edifícios e cidades que contribuam para que a nossa existência seja o mais prazerosa possível. É essencial, neste sentido, que nos identifiquemos com o sítio onde vivemos. E a arquitectura, naturalmente a par de muitas outras disciplinas, é inequivocamente importante neste contexto. Muitas das nossas memórias estão, aliás, relacionadas com espaço. Isto significa que os lugares que habitamos participam activamente na construção da nossa história. Como será a nossa vida se a arquitectura não tiver qualidade, se não tivermos consciência da sua importância? Torna-se fulcral, neste momento, olhar a envolvente construída de um modo crítico, visando melhorar os espaços que nos circundam e que tanto dizem sobre o nosso dia-a-dia. Da casa à cidade. Porque aceitar a sua constante mutação, numa criação sucessiva de camadas de história, é simultaneamente compreender o passado e construir o futuro, adaptando os espaços ao modo como pretendemos viver. Gonçalo Moleiro