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FILOMENA MARONA BEJA A SENHORA INFANTA EM SINTRA
EDUARDO SÉRGIO O OLHO DA LIBÉLULA FERNANDO MORAIS GOMES MISSA DAS DEZ EM S.MARTINHO FILOMENA MARONA BEJA A SENHORA INFANTA EM SINTRA RAQUEL OCHOA BOM DIA OU GOOD MORNING? GONÇALO MOLEIRO "A ARQUITECTURA E O MODO COMO QUEREMOS VIVER" JOÃO RODIL CHRISTOPHER ISHERWOOD E A GERAÇÃO AUDEN EM SINTRA MIGUEL REAL BELÍSSIMO RETRACTO FICCIONAL DO CONVENTO DOS CAPUCHOS GALOPIM DE CARVALHO PEGADAS NA PRAIA GRANDE DO RODÍZIO LUÍS FREITAS LIBERDADE TOTAL “Vá, cuida de trocar os panos”, mandava Mestre Gil. “Bota outra coifa e vai-te!” Justa acabava de fazer de Martina, no Auto das Ciganas. Enfiou uma saia às riscas por cimas da lisa que trazia vestida. Atirou com a coifa azul e põs outra, vermelha. Correu para cena. E, ataviada como agora se apresentava, logo a tomaram por Cassandra. Muito natural, dirigiu-se à Infanta: “Muestra la mano, señura, /No hayas nigun recelo. /Muy buena ventura tienez...” Contradizia tudo o que antes lhe saíra da boca. Da boca de Martina. Paula, a filha de Mestre Gil, estava ao lado da senhora Infanta, sua Ama. Mas não a avisou. Ciganas são ciganas. Actrizes também. E a coifa vermelha, já não era a de Martina. Estava-se no ano de 1537. Mestra Gil deixara de escrever novas farsas. Novas comédias. Dedicava-se, agora, a reunir o que criara até então, pensado publicar um livro a que chamaria: Compilaçam de todalas Obras. Mas, de vez em quando, lá voltava a mandar para a boca de cena Mofina Mendes. Inês Pereira. Afinal, já tinham agradado ao Rei. E ao Povo, agradariam sempre. Dessa vez, no Paço da Vila, a corte aplaudia um auto a que já assistira no claustro de Verão, em Xabregas. Auto das Ciganas. No reino, mal se conhecia aquele povo e muito se desconfiava dele. Talvez o teatro lhe evitasse perseguições. Quem sabia? A Corte estava em Sintra, desde a Primavera. Havia peste em Lisboa. Corria que, no Outono, se iria dar uma grande réplica do terramoto de 1531. A Senhora Infanta Dona Maria tinha agora dezasseis anos. Aos dez, estivera para casar com o Delfim de França. E, mais tarde, com Filipe, Rei de Espanha. Continuava solteira. Viera de trajo novo, nessa tarde. Estva ali por desejo, quase por ordem, de Dom João III, seu irmão. E por isso, caprichara: cota de mangas compridas, com cauda, manto debruado a pêlo de marta. Na cabeça, crespina de veludo entrançada com seda e fios de aljôfar. Seguia a Infanta o escravo que lhe fora trazido da costa de África por um capitão de galés. Mais atrás os seus podengos, vigiados por um rapazito malabar. Os galgos. Por fim, um alão de trenó e o seu tratador russo. Cão e tratador tinham sido um presente a Dona Maria, trazido pelo embaixador da grâ-princesa moscovita. “Laus Deo”, proferiu a Senhora Infanta ao acabar-se a função das ciganas. Aproximou-se El-Rei e tomou-a pala mão. Levou-a para diante da janela. Ia dar-lhe a saber que Filipe de Espanha, primo de ambos, tornara a pedi-la em casamento. “Muito me doerá apartar-me de vós, minha senhora e irmã...” Antes da fala d’El-Rei, o escravo angolano ajeitara o manto aos ombros da Infanta. Compusera-lhe os fios do toucado. Passou o Verão. Amiúde, a Senhora Infanta saía com as suas damas a passear no bosque que cerrava a Vila. Arrefecendo, recolhia ao Paço, pelas cozinhas. “O que há ao fogo?”, queria saber. Quantas canadas de leite? Onças de açúcar? Mais uma escudela de farinha e três dúzias de gemas. Cozido que bastasse, seria tirado fora e vazado em covilhetes. Preceitos a encontrar, trezentos e cinquenta anos depois, na Biblioteca Nacional de Nápoles. Ao casar com o duque de Parma, levara-os para Itália uma das suas sobrinhas. Assentes no caderno Manjares de Leite, faziam parte do Códice I.E.33. A Senhora Infanta mandava o escravo chamar pela Paula. Às vezes, por Justa. Repetissem-lhe tais e tais cenas de um auto. De uma farsa. Parava tudo na cozinha. Chegavam-se as duas perto do lume, para que todos as vissem. Cantando, falando, a Paula fazia de Verão. Ou de Inverno. Justa de Serra de Sintra. “Quem me dera tornar a representar no fundo de uma chaminé!...”, diriam ambas. Anos mais tarde. Soube-se, entretanto, que Dom João III não daria a mão da irmã a Filipe de Espanha. Dar-lhe-ia a da sua própria filha. O Rei continuava avesso ao casamento de Dona Maria. Ou talvez à ideia do dote que, com ela, iria para fora do Reino. Tratava-se, afinal, de uma incalculável fortuna. Na verdade, Dom João III nunca lhe daria marido. E todos passariam a chamar-lhe “A Sempre Noiva”. Nada que, nesse Outono, parecesse incomodar a Infanta. Sentou-se a escrever. Acrescentava receitas ao seu Livro de Cozinha. Diriam, mais tarde, que a caligrafia dessas últimas tiras era de um copista. Não a dela. Esqueceram-se que a amargura modifica o traço. Até transforma a escrita. Ao longe, ouviu-se o ladrar dos galgos. Dos podengos. E nisto, a Paula, dando novas da grande aflição que ia no pátio. Danara-se um cão. Ordem da Senhora Infanta: “Separem-no já da matilha, e acabem com ele”. Não. Não era cão de matilha. Era o alão de pelagem prateada que viera dos Urais. “Nesse caso, acabem também com o tratador!” E a Senhora Infanta mandou que lhe preparassem uma tigelada de rossalgar. Filomena Marona Beja, Sintra / Junho, 2017.
FILOMENA MARONA BEJA A SENHORA INFANTA EM SINTRA
“Vá, cuida de trocar os panos”, mandava Mestre Gil. “Bota outra coifa e vai-te!” Justa acabava de fazer de Martina, no Auto das Ciganas. Enfiou uma saia às riscas por cimas da lisa que trazia vestida. Atirou com a coifa azul e põs outra, vermelha. Correu para cena. E, ataviada como agora se apresentava, logo a tomaram por Cassandra. Muito natural, dirigiu-se à Infanta: “Muestra la mano, señura, /No hayas nigun recelo. /Muy buena ventura tienez...” Contradizia tudo o que antes lhe saíra da boca. Da boca de Martina. Paula, a filha de Mestre Gil, estava ao lado da senhora Infanta, sua Ama. Mas não a avisou. Ciganas são ciganas. Actrizes também. E a coifa vermelha, já não era a de Martina. Estava-se no ano de 1537. Mestra Gil deixara de escrever novas farsas. Novas comédias. Dedicava-se, agora, a reunir o que criara até então, pensado publicar um livro a que chamaria: Compilaçam de todalas Obras. Mas, de vez em quando, lá voltava a mandar para a boca de cena Mofina Mendes. Inês Pereira. Afinal, já tinham agradado ao Rei. E ao Povo, agradariam sempre. Dessa vez, no Paço da Vila, a corte aplaudia um auto a que já assistira no claustro de Verão, em Xabregas. Auto das Ciganas. No reino, mal se conhecia aquele povo e muito se desconfiava dele. Talvez o teatro lhe evitasse perseguições. Quem sabia? A Corte estava em Sintra, desde a Primavera. Havia peste em Lisboa. Corria que, no Outono, se iria dar uma grande réplica do terramoto de 1531. A Senhora Infanta Dona Maria tinha agora dezasseis anos. Aos dez, estivera para casar com o Delfim de França. E, mais tarde, com Filipe, Rei de Espanha. Continuava solteira. Viera de trajo novo, nessa tarde. Estva ali por desejo, quase por ordem, de Dom João III, seu irmão. E por isso, caprichara: cota de mangas compridas, com cauda, manto debruado a pêlo de marta. Na cabeça, crespina de veludo entrançada com seda e fios de aljôfar. Seguia a Infanta o escravo que lhe fora trazido da costa de África por um capitão de galés. Mais atrás os seus podengos, vigiados por um rapazito malabar. Os galgos. Por fim, um alão de trenó e o seu tratador russo. Cão e tratador tinham sido um presente a Dona Maria, trazido pelo embaixador da grâ-princesa moscovita. “Laus Deo”, proferiu a Senhora Infanta ao acabar-se a função das ciganas. Aproximou-se El-Rei e tomou-a pala mão. Levou-a para diante da janela. Ia dar-lhe a saber que Filipe de Espanha, primo de ambos, tornara a pedi-la em casamento. “Muito me doerá apartar-me de vós, minha senhora e irmã...” Antes da fala d’El-Rei, o escravo angolano ajeitara o manto aos ombros da Infanta. Compusera-lhe os fios do toucado. Passou o Verão. Amiúde, a Senhora Infanta saía com as suas damas a passear no bosque que cerrava a Vila. Arrefecendo, recolhia ao Paço, pelas cozinhas. “O que há ao fogo?”, queria saber. Quantas canadas de leite? Onças de açúcar? Mais uma escudela de farinha e três dúzias de gemas. Cozido que bastasse, seria tirado fora e vazado em covilhetes. Preceitos a encontrar, trezentos e cinquenta anos depois, na Biblioteca Nacional de Nápoles. Ao casar com o duque de Parma, levara-os para Itália uma das suas sobrinhas. Assentes no caderno Manjares de Leite, faziam parte do Códice I.E.33. A Senhora Infanta mandava o escravo chamar pela Paula. Às vezes, por Justa. Repetissem-lhe tais e tais cenas de um auto. De uma farsa. Parava tudo na cozinha. Chegavam-se as duas perto do lume, para que todos as vissem. Cantando, falando, a Paula fazia de Verão. Ou de Inverno. Justa de Serra de Sintra. “Quem me dera tornar a representar no fundo de uma chaminé!...”, diriam ambas. Anos mais tarde. Soube-se, entretanto, que Dom João III não daria a mão da irmã a Filipe de Espanha. Dar-lhe-ia a da sua própria filha. O Rei continuava avesso ao casamento de Dona Maria. Ou talvez à ideia do dote que, com ela, iria para fora do Reino. Tratava-se, afinal, de uma incalculável fortuna. Na verdade, Dom João III nunca lhe daria marido. E todos passariam a chamar-lhe “A Sempre Noiva”. Nada que, nesse Outono, parecesse incomodar a Infanta. Sentou-se a escrever. Acrescentava receitas ao seu Livro de Cozinha. Diriam, mais tarde, que a caligrafia dessas últimas tiras era de um copista. Não a dela. Esqueceram-se que a amargura modifica o traço. Até transforma a escrita. Ao longe, ouviu-se o ladrar dos galgos. Dos podengos. E nisto, a Paula, dando novas da grande aflição que ia no pátio. Danara-se um cão. Ordem da Senhora Infanta: “Separem-no já da matilha, e acabem com ele”. Não. Não era cão de matilha. Era o alão de pelagem prateada que viera dos Urais. “Nesse caso, acabem também com o tratador!” E a Senhora Infanta mandou que lhe preparassem uma tigelada de rossalgar. Filomena Marona Beja, Sintra / Junho, 2017.
FILOMENA MARONA BEJA A SENHORA INFANTA EM SINTRA
“Vá, cuida de trocar os panos”, mandava Mestre Gil. “Bota outra coifa e vai-te!” Justa acabava de fazer de Martina, no Auto das Ciganas. Enfiou uma saia às riscas por cimas da lisa que trazia vestida. Atirou com a coifa azul e põs outra, vermelha. Correu para cena. E, ataviada como agora se apresentava, logo a tomaram por Cassandra. Muito natural, dirigiu-se à Infanta: “Muestra la mano, señura, /No hayas nigun recelo. /Muy buena ventura tienez...” Contradizia tudo o que antes lhe saíra da boca. Da boca de Martina. Paula, a filha de Mestre Gil, estava ao lado da senhora Infanta, sua Ama. Mas não a avisou. Ciganas são ciganas. Actrizes também. E a coifa vermelha, já não era a de Martina. Estava-se no ano de 1537. Mestra Gil deixara de escrever novas farsas. Novas comédias. Dedicava-se, agora, a reunir o que criara até então, pensado publicar um livro a que chamaria: Compilaçam de todalas Obras. Mas, de vez em quando, lá voltava a mandar para a boca de cena Mofina Mendes. Inês Pereira. Afinal, já tinham agradado ao Rei. E ao Povo, agradariam sempre. Dessa vez, no Paço da Vila, a corte aplaudia um auto a que já assistira no claustro de Verão, em Xabregas. Auto das Ciganas. No reino, mal se conhecia aquele povo e muito se desconfiava dele. Talvez o teatro lhe evitasse perseguições. Quem sabia? A Corte estava em Sintra, desde a Primavera. Havia peste em Lisboa. Corria que, no Outono, se iria dar uma grande réplica do terramoto de 1531. A Senhora Infanta Dona Maria tinha agora dezasseis anos. Aos dez, estivera para casar com o Delfim de França. E, mais tarde, com Filipe, Rei de Espanha. Continuava solteira. Viera de trajo novo, nessa tarde. Estva ali por desejo, quase por ordem, de Dom João III, seu irmão. E por isso, caprichara: cota de mangas compridas, com cauda, manto debruado a pêlo de marta. Na cabeça, crespina de veludo entrançada com seda e fios de aljôfar. Seguia a Infanta o escravo que lhe fora trazido da costa de África por um capitão de galés. Mais atrás os seus podengos, vigiados por um rapazito malabar. Os galgos. Por fim, um alão de trenó e o seu tratador russo. Cão e tratador tinham sido um presente a Dona Maria, trazido pelo embaixador da grâ-princesa moscovita. “Laus Deo”, proferiu a Senhora Infanta ao acabar-se a função das ciganas. Aproximou-se El-Rei e tomou-a pala mão. Levou-a para diante da janela. Ia dar-lhe a saber que Filipe de Espanha, primo de ambos, tornara a pedi-la em casamento. “Muito me doerá apartar-me de vós, minha senhora e irmã...” Antes da fala d’El-Rei, o escravo angolano ajeitara o manto aos ombros da Infanta. Compusera-lhe os fios do toucado. Passou o Verão. Amiúde, a Senhora Infanta saía com as suas damas a passear no bosque que cerrava a Vila. Arrefecendo, recolhia ao Paço, pelas cozinhas. “O que há ao fogo?”, queria saber. Quantas canadas de leite? Onças de açúcar? Mais uma escudela de farinha e três dúzias de gemas. Cozido que bastasse, seria tirado fora e vazado em covilhetes. Preceitos a encontrar, trezentos e cinquenta anos depois, na Biblioteca Nacional de Nápoles. Ao casar com o duque de Parma, levara-os para Itália uma das suas sobrinhas. Assentes no caderno Manjares de Leite, faziam parte do Códice I.E.33. A Senhora Infanta mandava o escravo chamar pela Paula. Às vezes, por Justa. Repetissem-lhe tais e tais cenas de um auto. De uma farsa. Parava tudo na cozinha. Chegavam-se as duas perto do lume, para que todos as vissem. Cantando, falando, a Paula fazia de Verão. Ou de Inverno. Justa de Serra de Sintra. “Quem me dera tornar a representar no fundo de uma chaminé!...”, diriam ambas. Anos mais tarde. Soube-se, entretanto, que Dom João III não daria a mão da irmã a Filipe de Espanha. Dar-lhe-ia a da sua própria filha. O Rei continuava avesso ao casamento de Dona Maria. Ou talvez à ideia do dote que, com ela, iria para fora do Reino. Tratava-se, afinal, de uma incalculável fortuna. Na verdade, Dom João III nunca lhe daria marido. E todos passariam a chamar-lhe “A Sempre Noiva”. Nada que, nesse Outono, parecesse incomodar a Infanta. Sentou-se a escrever. Acrescentava receitas ao seu Livro de Cozinha. Diriam, mais tarde, que a caligrafia dessas últimas tiras era de um copista. Não a dela. Esqueceram-se que a amargura modifica o traço. Até transforma a escrita. Ao longe, ouviu-se o ladrar dos galgos. Dos podengos. E nisto, a Paula, dando novas da grande aflição que ia no pátio. Danara-se um cão. Ordem da Senhora Infanta: “Separem-no já da matilha, e acabem com ele”. Não. Não era cão de matilha. Era o alão de pelagem prateada que viera dos Urais. “Nesse caso, acabem também com o tratador!” E a Senhora Infanta mandou que lhe preparassem uma tigelada de rossalgar. Filomena Marona Beja, Sintra / Junho, 2017.
FILOMENA MARONA BEJA A SENHORA INFANTA EM SINTRA
“Vá, cuida de trocar os panos”, mandava Mestre Gil. “Bota outra coifa e vai-te!” Justa acabava de fazer de Martina, no Auto das Ciganas. Enfiou uma saia às riscas por cimas da lisa que trazia vestida. Atirou com a coifa azul e põs outra, vermelha. Correu para cena. E, ataviada como agora se apresentava, logo a tomaram por Cassandra. Muito natural, dirigiu-se à Infanta: “Muestra la mano, señura, /No hayas nigun recelo. /Muy buena ventura tienez...” Contradizia tudo o que antes lhe saíra da boca. Da boca de Martina. Paula, a filha de Mestre Gil, estava ao lado da senhora Infanta, sua Ama. Mas não a avisou. Ciganas são ciganas. Actrizes também. E a coifa vermelha, já não era a de Martina. Estava-se no ano de 1537. Mestra Gil deixara de escrever novas farsas. Novas comédias. Dedicava-se, agora, a reunir o que criara até então, pensado publicar um livro a que chamaria: Compilaçam de todalas Obras. Mas, de vez em quando, lá voltava a mandar para a boca de cena Mofina Mendes. Inês Pereira. Afinal, já tinham agradado ao Rei. E ao Povo, agradariam sempre. Dessa vez, no Paço da Vila, a corte aplaudia um auto a que já assistira no claustro de Verão, em Xabregas. Auto das Ciganas. No reino, mal se conhecia aquele povo e muito se desconfiava dele. Talvez o teatro lhe evitasse perseguições. Quem sabia? A Corte estava em Sintra, desde a Primavera. Havia peste em Lisboa. Corria que, no Outono, se iria dar uma grande réplica do terramoto de 1531. A Senhora Infanta Dona Maria tinha agora dezasseis anos. Aos dez, estivera para casar com o Delfim de França. E, mais tarde, com Filipe, Rei de Espanha. Continuava solteira. Viera de trajo novo, nessa tarde. Estva ali por desejo, quase por ordem, de Dom João III, seu irmão. E por isso, caprichara: cota de mangas compridas, com cauda, manto debruado a pêlo de marta. Na cabeça, crespina de veludo entrançada com seda e fios de aljôfar. Seguia a Infanta o escravo que lhe fora trazido da costa de África por um capitão de galés. Mais atrás os seus podengos, vigiados por um rapazito malabar. Os galgos. Por fim, um alão de trenó e o seu tratador russo. Cão e tratador tinham sido um presente a Dona Maria, trazido pelo embaixador da grâ-princesa moscovita. “Laus Deo”, proferiu a Senhora Infanta ao acabar-se a função das ciganas. Aproximou-se El-Rei e tomou-a pala mão. Levou-a para diante da janela. Ia dar-lhe a saber que Filipe de Espanha, primo de ambos, tornara a pedi-la em casamento. “Muito me doerá apartar-me de vós, minha senhora e irmã...” Antes da fala d’El-Rei, o escravo angolano ajeitara o manto aos ombros da Infanta. Compusera-lhe os fios do toucado. Passou o Verão. Amiúde, a Senhora Infanta saía com as suas damas a passear no bosque que cerrava a Vila. Arrefecendo, recolhia ao Paço, pelas cozinhas. “O que há ao fogo?”, queria saber. Quantas canadas de leite? Onças de açúcar? Mais uma escudela de farinha e três dúzias de gemas. Cozido que bastasse, seria tirado fora e vazado em covilhetes. Preceitos a encontrar, trezentos e cinquenta anos depois, na Biblioteca Nacional de Nápoles. Ao casar com o duque de Parma, levara-os para Itália uma das suas sobrinhas. Assentes no caderno Manjares de Leite, faziam parte do Códice I.E.33. A Senhora Infanta mandava o escravo chamar pela Paula. Às vezes, por Justa. Repetissem-lhe tais e tais cenas de um auto. De uma farsa. Parava tudo na cozinha. Chegavam-se as duas perto do lume, para que todos as vissem. Cantando, falando, a Paula fazia de Verão. Ou de Inverno. Justa de Serra de Sintra. “Quem me dera tornar a representar no fundo de uma chaminé!...”, diriam ambas. Anos mais tarde. Soube-se, entretanto, que Dom João III não daria a mão da irmã a Filipe de Espanha. Dar-lhe-ia a da sua própria filha. O Rei continuava avesso ao casamento de Dona Maria. Ou talvez à ideia do dote que, com ela, iria para fora do Reino. Tratava-se, afinal, de uma incalculável fortuna. Na verdade, Dom João III nunca lhe daria marido. E todos passariam a chamar-lhe “A Sempre Noiva”. Nada que, nesse Outono, parecesse incomodar a Infanta. Sentou-se a escrever. Acrescentava receitas ao seu Livro de Cozinha. Diriam, mais tarde, que a caligrafia dessas últimas tiras era de um copista. Não a dela. Esqueceram-se que a amargura modifica o traço. Até transforma a escrita. Ao longe, ouviu-se o ladrar dos galgos. Dos podengos. E nisto, a Paula, dando novas da grande aflição que ia no pátio. Danara-se um cão. Ordem da Senhora Infanta: “Separem-no já da matilha, e acabem com ele”. Não. Não era cão de matilha. Era o alão de pelagem prateada que viera dos Urais. “Nesse caso, acabem também com o tratador!” E a Senhora Infanta mandou que lhe preparassem uma tigelada de rossalgar. Filomena Marona Beja, Sintra / Junho, 2017.
FILOMENA MARONA BEJA A SENHORA INFANTA EM SINTRA
“Vá, cuida de trocar os panos”, mandava Mestre Gil. “Bota outra coifa e vai-te!” Justa acabava de fazer de Martina, no Auto das Ciganas. Enfiou uma saia às riscas por cimas da lisa que trazia vestida. Atirou com a coifa azul e põs outra, vermelha. Correu para cena. E, ataviada como agora se apresentava, logo a tomaram por Cassandra. Muito natural, dirigiu-se à Infanta: “Muestra la mano, señura, /No hayas nigun recelo. /Muy buena ventura tienez...” Contradizia tudo o que antes lhe saíra da boca. Da boca de Martina. Paula, a filha de Mestre Gil, estava ao lado da senhora Infanta, sua Ama. Mas não a avisou. Ciganas são ciganas. Actrizes também. E a coifa vermelha, já não era a de Martina. Estava-se no ano de 1537. Mestra Gil deixara de escrever novas farsas. Novas comédias. Dedicava-se, agora, a reunir o que criara até então, pensado publicar um livro a que chamaria: Compilaçam de todalas Obras. Mas, de vez em quando, lá voltava a mandar para a boca de cena Mofina Mendes. Inês Pereira. Afinal, já tinham agradado ao Rei. E ao Povo, agradariam sempre. Dessa vez, no Paço da Vila, a corte aplaudia um auto a que já assistira no claustro de Verão, em Xabregas. Auto das Ciganas. No reino, mal se conhecia aquele povo e muito se desconfiava dele. Talvez o teatro lhe evitasse perseguições. Quem sabia? A Corte estava em Sintra, desde a Primavera. Havia peste em Lisboa. Corria que, no Outono, se iria dar uma grande réplica do terramoto de 1531. A Senhora Infanta Dona Maria tinha agora dezasseis anos. Aos dez, estivera para casar com o Delfim de França. E, mais tarde, com Filipe, Rei de Espanha. Continuava solteira. Viera de trajo novo, nessa tarde. Estva ali por desejo, quase por ordem, de Dom João III, seu irmão. E por isso, caprichara: cota de mangas compridas, com cauda, manto debruado a pêlo de marta. Na cabeça, crespina de veludo entrançada com seda e fios de aljôfar. Seguia a Infanta o escravo que lhe fora trazido da costa de África por um capitão de galés. Mais atrás os seus podengos, vigiados por um rapazito malabar. Os galgos. Por fim, um alão de trenó e o seu tratador russo. Cão e tratador tinham sido um presente a Dona Maria, trazido pelo embaixador da grâ-princesa moscovita. “Laus Deo”, proferiu a Senhora Infanta ao acabar-se a função das ciganas. Aproximou-se El-Rei e tomou-a pala mão. Levou-a para diante da janela. Ia dar-lhe a saber que Filipe de Espanha, primo de ambos, tornara a pedi-la em casamento. “Muito me doerá apartar-me de vós, minha senhora e irmã...” Antes da fala d’El-Rei, o escravo angolano ajeitara o manto aos ombros da Infanta. Compusera-lhe os fios do toucado. Passou o Verão. Amiúde, a Senhora Infanta saía com as suas damas a passear no bosque que cerrava a Vila. Arrefecendo, recolhia ao Paço, pelas cozinhas. “O que há ao fogo?”, queria saber. Quantas canadas de leite? Onças de açúcar? Mais uma escudela de farinha e três dúzias de gemas. Cozido que bastasse, seria tirado fora e vazado em covilhetes. Preceitos a encontrar, trezentos e cinquenta anos depois, na Biblioteca Nacional de Nápoles. Ao casar com o duque de Parma, levara-os para Itália uma das suas sobrinhas. Assentes no caderno Manjares de Leite, faziam parte do Códice I.E.33. A Senhora Infanta mandava o escravo chamar pela Paula. Às vezes, por Justa. Repetissem-lhe tais e tais cenas de um auto. De uma farsa. Parava tudo na cozinha. Chegavam-se as duas perto do lume, para que todos as vissem. Cantando, falando, a Paula fazia de Verão. Ou de Inverno. Justa de Serra de Sintra. “Quem me dera tornar a representar no fundo de uma chaminé!...”, diriam ambas. Anos mais tarde. Soube-se, entretanto, que Dom João III não daria a mão da irmã a Filipe de Espanha. Dar-lhe-ia a da sua própria filha. O Rei continuava avesso ao casamento de Dona Maria. Ou talvez à ideia do dote que, com ela, iria para fora do Reino. Tratava-se, afinal, de uma incalculável fortuna. Na verdade, Dom João III nunca lhe daria marido. E todos passariam a chamar-lhe “A Sempre Noiva”. Nada que, nesse Outono, parecesse incomodar a Infanta. Sentou-se a escrever. Acrescentava receitas ao seu Livro de Cozinha. Diriam, mais tarde, que a caligrafia dessas últimas tiras era de um copista. Não a dela. Esqueceram-se que a amargura modifica o traço. Até transforma a escrita. Ao longe, ouviu-se o ladrar dos galgos. Dos podengos. E nisto, a Paula, dando novas da grande aflição que ia no pátio. Danara-se um cão. Ordem da Senhora Infanta: “Separem-no já da matilha, e acabem com ele”. Não. Não era cão de matilha. Era o alão de pelagem prateada que viera dos Urais. “Nesse caso, acabem também com o tratador!” E a Senhora Infanta mandou que lhe preparassem uma tigelada de rossalgar. Filomena Marona Beja, Sintra / Junho, 2017.