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FERNANDO MORAIS GOMES MISSA DAS DEZ EM S.MARTINHO
EDUARDO SÉRGIO O OLHO DA LIBÉLULA FERNANDO MORAIS GOMES MISSA DAS DEZ EM S.MARTINHO FILOMENA MARONA BEJA A SENHORA INFANTA EM SINTRA RAQUEL OCHOA BOM DIA OU GOOD MORNING? GONÇALO MOLEIRO "A ARQUITECTURA E O MODO COMO QUEREMOS VIVER" JOÃO RODIL CHRISTOPHER ISHERWOOD E A GERAÇÃO AUDEN EM SINTRA MIGUEL REAL BELÍSSIMO RETRACTO FICCIONAL DO CONVENTO DOS CAPUCHOS GALOPIM DE CARVALHO PEGADAS NA PRAIA GRANDE DO RODÍZIO LUÍS FREITAS LIBERDADE TOTAL Desde criança Roberto se habituara àquelas rotinas domingueiras: a missa das 10 em S. Martinho, com a avó Sara, a catequese com o padre Mateus, nariz de gavião, sempre a ameaçar com o Inferno, o pecado de brincar nas aulas de Moral, desfilara até de anjinho numa procissão, enfiado num fato de cetim com asas brancas que a Ermelinda cosera. Com os anos, afastara-se da igreja, apenas revisitada para casamentos e funerais. Era como voltar a um sítio estranho, desconhecedor da liturgia moderna, embora fascinado pelos vitrais e pela talha dourada, nisso se revia, mais pela mão do homem que pelos totens que os artefactos significavam. Passados os quarenta, e já separado de Matilde, voltou a passar o Natal com a mãe, em Sintra. Devota, D. Idalina não dispensou a missa matinal em S. Martinho, no dia seguinte ao Natal, e a custo para ela arrastou Roberto e o pequeno Fábio. Rendido ao espírito da data, Roberto lá se deixou levar, mal não faria, o prazer dum momento com as três gerações, normalmente separadas, levou-o a ceder, se bem que aguardasse sentado numa cadeira do fundo, contemplando os santos e absorvendo o cheiro a flores. Na sacristia, a velha Almerinda trocava as jarras e ia acendendo as velas antes da missa, num ritual de anos, desde que enviuvara. Roberto deixou-se a contemplar o ritual dos preparativos, na Expo, onde morava, nada disto havia já, o silêncio da igreja tranquilizou-o, logo interrompido pela necessidade de fumar um cigarro. Tardando a missa, e deixando avó e neto sentados, saiu a ver as vistas, quando vislumbrou o Gregório, velho colega do liceu. Há muito o não via e correu a abraçá-lo, recordando os anos de ambos nos juniores do Sintrense: -Gregório! Então, pá? Há quantos anos! Estás na mesma, velho amigo! Essa barriguinha é que…- Roberto ficou feliz de o rever, já pelos quarenta, também, há anos não se encontravam. Soube que tinha ido para Filosofia, ele seguira Económicas, mas acabara jornalista, em Lisboa. Com o filho viera passar o Natal, para o miúdo estar com a avó, o pai falecera há poucos meses e sentiu-se na obrigação de passar a quadra com a mãe e o filho. -Venham de lá esses ossos, grande Roberto! -o Gregório, com uma cara abolachada e óculos de massa, abraçou o amigo, uma barba rala e esbranquiçada era a principal diferença que lhe notava, de resto estava igual, com aquele ar engatatão que levara à certa as miúdas de Sintra nos bons anos noventa - Vais à missa? -questionou o Gregório, vendo-o à entrada de S. Martinho. -Que remédio!. A minha mãe teimou, e sabes, com a idade, é melhor fazer-lhe a vontade. Para mais está com o neto. Eu, igrejas, é como o diabo da cruz. Vim para aqui fumar um cigarro…. Gregório sorriu, insistindo com o amigo: -Deixaste de acreditar em Deus, Roberto? Tu, que eras o anjinho favorito do padre Mateus? - Gregório provocou o amigo, que dava uma passa no cigarro quase terminado. Roberto teorizou: -Nunca leste o Christopher Hitchens? Escreveu aquele livro "Deus não é grande – como as religiões envenenam tudo". O gajo descrevia-se como um crente nos valores do iluminismo, e achava que o conceito de Deus ou de um ser supremo é uma crença totalitária que destrói a liberdade individual. Só a livre expressão e a investigação científica deveriam substituir a religião como um meio de ensinar ética e definir a civilização humana. Estou como ele! Gregório fez uma pausa, e pondo a mão no ombro do amigo retorquiu: -Sabes, Roberto, é mais fácil meter Deus debaixo do tapete que eliminá-lo para sempre. Porque, agnósticos, ateus ou meramente revoltados, todos somos capturados pela ideia de Deus desde que nascemos, e quando achamos que o podemos tratar por tu, já ele nos moldou o ser e o comportamento, desde quando ainda nem disso tínhamos noção. Assim, negar Deus é sempre uma atitude reactiva, nunca pró-ativa. Não se discute Deus, nega-se ou venera-se, e esse tipo de atitude é sempre irracional. Daí que o ateísmo nunca possa ser científico, mas apenas uma corrente de negação, uma moda, se quiseres. -Pessoalmente, meu velho, a minha postura é: não acredito em Deus!. E o bosão de Higgs acabará por o “matar”, enquanto chave do universo. Contudo, uma coisa é certa: acredito nos que acreditam. O homem é um ser de crenças. É aliás o único animal que distingue a água da água benta, como alguém um dia escreveu. Muitos dos que buscam respostas para as inseguranças, refugiam-se em algo a que chamam fé, e quando os seus desejos por conjugação de factores inesperados ocorrem, chamam a isso milagres. Acontece o mesmo nas ortodoxias comunistas, com outros santos, altares e sacerdotes. Vê lá a Coreia do Norte! O Freud já explicou isso tudo! Gregório sorriu, indulgente. Com o sino da torre da Vila a dar as dez, olhou o relógio e apressou-se, combinando com Roberto voltarem a ver-se em breve e deixando um comentário final: -Será negativo acreditar e ter fé? Quando a fé contribuir para acentuar valores como os da liberdade, livre arbítrio e solidariedade, nada a apontar. É certo que em seu nome se matou e destruiu, em nome de fanatismos a que se chamou fé, e intolerâncias a que se chamou conversão. Há muita floresta para lá de certas árvores, meu velho. Dá um beijo à tua mãe e ao teu filho! Se calhar ainda os vou ver por aí… Voltando para a porta da igreja, já repleta lá dentro, a missa estava prestes a começar, Fábio, compenetrado e em silêncio, sentava-se na fila da frente com a avó. Terminando o cigarro, Roberto deixou-se estar à entrada, em pé, mirando aquele cenário e cheiro que até aos catorze lhe havia sido familiar. Disparando, a música do órgão precedeu o início da missa e todos em pé saudaram a entrada dos celebrantes. Curioso, Roberto espreitou, a ver se o padre Mateus ainda estava na mesma, vindos da sacristia, nenhum dos três vultos se parecia com ele. Aproximou-se um pouco e atrás dumas vestes brancas, com uma sobrepeliz verde, reconheceu o Gregório. O velho amigo com quem palestrara momentos antes, era afinal o pároco de S. Martinho. Aproximando-se das filas do meio, sorriu para o antigo companheiro, que, abrindo os braços e dando início à missa, lhe piscou o olho, cúmplice, como quando marcavam golos no velho campo do Sintrense: -O Senhor esteja convosco! -saudou o padre Gregório. -Ele está no meio de nós! -respondeu a assembleia, em coro, acompanhada por Roberto, sussurrando. Uma missa de vez em quando não faria mal, por certo.
FERNANDO MORAIS GOMES MISSA DAS DEZ EM S.MARTINHO
Desde criança Roberto se habituara àquelas rotinas domingueiras: a missa das 10 em S. Martinho, com a avó Sara, a catequese com o padre Mateus, nariz de gavião, sempre a ameaçar com o Inferno, o pecado de brincar nas aulas de Moral, desfilara até de anjinho numa procissão, enfiado num fato de cetim com asas brancas que a Ermelinda cosera. Com os anos, afastara-se da igreja, apenas revisitada para casamentos e funerais. Era como voltar a um sítio estranho, desconhecedor da liturgia moderna, embora fascinado pelos vitrais e pela talha dourada, nisso se revia, mais pela mão do homem que pelos totens que os artefactos significavam. Passados os quarenta, e já separado de Matilde, voltou a passar o Natal com a mãe, em Sintra. Devota, D. Idalina não dispensou a missa matinal em S. Martinho, no dia seguinte ao Natal, e a custo para ela arrastou Roberto e o pequeno Fábio. Rendido ao espírito da data, Roberto lá se deixou levar, mal não faria, o prazer dum momento com as três gerações, normalmente separadas, levou-o a ceder, se bem que aguardasse sentado numa cadeira do fundo, contemplando os santos e absorvendo o cheiro a flores. Na sacristia, a velha Almerinda trocava as jarras e ia acendendo as velas antes da missa, num ritual de anos, desde que enviuvara. Roberto deixou-se a contemplar o ritual dos preparativos, na Expo, onde morava, nada disto havia já, o silêncio da igreja tranquilizou-o, logo interrompido pela necessidade de fumar um cigarro. Tardando a missa, e deixando avó e neto sentados, saiu a ver as vistas, quando vislumbrou o Gregório, velho colega do liceu. Há muito o não via e correu a abraçá-lo, recordando os anos de ambos nos juniores do Sintrense: -Gregório! Então, pá? Há quantos anos! Estás na mesma, velho amigo! Essa barriguinha é que…- Roberto ficou feliz de o rever, já pelos quarenta, também, há anos não se encontravam. Soube que tinha ido para Filosofia, ele seguira Económicas, mas acabara jornalista, em Lisboa. Com o filho viera passar o Natal, para o miúdo estar com a avó, o pai falecera há poucos meses e sentiu-se na obrigação de passar a quadra com a mãe e o filho. -Venham de lá esses ossos, grande Roberto! -o Gregório, com uma cara abolachada e óculos de massa, abraçou o amigo, uma barba rala e esbranquiçada era a principal diferença que lhe notava, de resto estava igual, com aquele ar engatatão que levara à certa as miúdas de Sintra nos bons anos noventa - Vais à missa? -questionou o Gregório, vendo-o à entrada de S. Martinho. -Que remédio!. A minha mãe teimou, e sabes, com a idade, é melhor fazer-lhe a vontade. Para mais está com o neto. Eu, igrejas, é como o diabo da cruz. Vim para aqui fumar um cigarro…. Gregório sorriu, insistindo com o amigo: -Deixaste de acreditar em Deus, Roberto? Tu, que eras o anjinho favorito do padre Mateus? - Gregório provocou o amigo, que dava uma passa no cigarro quase terminado. Roberto teorizou: -Nunca leste o Christopher Hitchens? Escreveu aquele livro "Deus não é grande – como as religiões envenenam tudo". O gajo descrevia-se como um crente nos valores do iluminismo, e achava que o conceito de Deus ou de um ser supremo é uma crença totalitária que destrói a liberdade individual. Só a livre expressão e a investigação científica deveriam substituir a religião como um meio de ensinar ética e definir a civilização humana. Estou como ele! Gregório fez uma pausa, e pondo a mão no ombro do amigo retorquiu: -Sabes, Roberto, é mais fácil meter Deus debaixo do tapete que eliminá-lo para sempre. Porque, agnósticos, ateus ou meramente revoltados, todos somos capturados pela ideia de Deus desde que nascemos, e quando achamos que o podemos tratar por tu, já ele nos moldou o ser e o comportamento, desde quando ainda nem disso tínhamos noção. Assim, negar Deus é sempre uma atitude reactiva, nunca pró-ativa. Não se discute Deus, nega-se ou venera-se, e esse tipo de atitude é sempre irracional. Daí que o ateísmo nunca possa ser científico, mas apenas uma corrente de negação, uma moda, se quiseres. -Pessoalmente, meu velho, a minha postura é: não acredito em Deus!. E o bosão de Higgs acabará por o “matar”, enquanto chave do universo. Contudo, uma coisa é certa: acredito nos que acreditam. O homem é um ser de crenças. É aliás o único animal que distingue a água da água benta, como alguém um dia escreveu. Muitos dos que buscam respostas para as inseguranças, refugiam-se em algo a que chamam fé, e quando os seus desejos por conjugação de factores inesperados ocorrem, chamam a isso milagres. Acontece o mesmo nas ortodoxias comunistas, com outros santos, altares e sacerdotes. Vê lá a Coreia do Norte! O Freud já explicou isso tudo! Gregório sorriu, indulgente. Com o sino da torre da Vila a dar as dez, olhou o relógio e apressou-se, combinando com Roberto voltarem a ver-se em breve e deixando um comentário final: -Será negativo acreditar e ter fé? Quando a fé contribuir para acentuar valores como os da liberdade, livre arbítrio e solidariedade, nada a apontar. É certo que em seu nome se matou e destruiu, em nome de fanatismos a que se chamou fé, e intolerâncias a que se chamou conversão. Há muita floresta para lá de certas árvores, meu velho. Dá um beijo à tua mãe e ao teu filho! Se calhar ainda os vou ver por aí… Voltando para a porta da igreja, já repleta lá dentro, a missa estava prestes a começar, Fábio, compenetrado e em silêncio, sentava-se na fila da frente com a avó. Terminando o cigarro, Roberto deixou-se estar à entrada, em pé, mirando aquele cenário e cheiro que até aos catorze lhe havia sido familiar. Disparando, a música do órgão precedeu o início da missa e todos em pé saudaram a entrada dos celebrantes. Curioso, Roberto espreitou, a ver se o padre Mateus ainda estava na mesma, vindos da sacristia, nenhum dos três vultos se parecia com ele. Aproximou-se um pouco e atrás dumas vestes brancas, com uma sobrepeliz verde, reconheceu o Gregório. O velho amigo com quem palestrara momentos antes, era afinal o pároco de S. Martinho. Aproximando-se das filas do meio, sorriu para o antigo companheiro, que, abrindo os braços e dando início à missa, lhe piscou o olho, cúmplice, como quando marcavam golos no velho campo do Sintrense: -O Senhor esteja convosco! -saudou o padre Gregório. -Ele está no meio de nós! -respondeu a assembleia, em coro, acompanhada por Roberto, sussurrando. Uma missa de vez em quando não faria mal, por certo.
FERNANDO MORAIS GOMES MISSA DAS DEZ EM S.MARTINHO
Desde criança Roberto se habituara àquelas rotinas domingueiras: a missa das 10 em S. Martinho, com a avó Sara, a catequese com o padre Mateus, nariz de gavião, sempre a ameaçar com o Inferno, o pecado de brincar nas aulas de Moral, desfilara até de anjinho numa procissão, enfiado num fato de cetim com asas brancas que a Ermelinda cosera. Com os anos, afastara-se da igreja, apenas revisitada para casamentos e funerais. Era como voltar a um sítio estranho, desconhecedor da liturgia moderna, embora fascinado pelos vitrais e pela talha dourada, nisso se revia, mais pela mão do homem que pelos totens que os artefactos significavam. Passados os quarenta, e já separado de Matilde, voltou a passar o Natal com a mãe, em Sintra. Devota, D. Idalina não dispensou a missa matinal em S. Martinho, no dia seguinte ao Natal, e a custo para ela arrastou Roberto e o pequeno Fábio. Rendido ao espírito da data, Roberto lá se deixou levar, mal não faria, o prazer dum momento com as três gerações, normalmente separadas, levou-o a ceder, se bem que aguardasse sentado numa cadeira do fundo, contemplando os santos e absorvendo o cheiro a flores. Na sacristia, a velha Almerinda trocava as jarras e ia acendendo as velas antes da missa, num ritual de anos, desde que enviuvara. Roberto deixou-se a contemplar o ritual dos preparativos, na Expo, onde morava, nada disto havia já, o silêncio da igreja tranquilizou-o, logo interrompido pela necessidade de fumar um cigarro. Tardando a missa, e deixando avó e neto sentados, saiu a ver as vistas, quando vislumbrou o Gregório, velho colega do liceu. Há muito o não via e correu a abraçá-lo, recordando os anos de ambos nos juniores do Sintrense: -Gregório! Então, pá? Há quantos anos! Estás na mesma, velho amigo! Essa barriguinha é que…- Roberto ficou feliz de o rever, já pelos quarenta, também, há anos não se encontravam. Soube que tinha ido para Filosofia, ele seguira Económicas, mas acabara jornalista, em Lisboa. Com o filho viera passar o Natal, para o miúdo estar com a avó, o pai falecera há poucos meses e sentiu-se na obrigação de passar a quadra com a mãe e o filho. -Venham de lá esses ossos, grande Roberto! -o Gregório, com uma cara abolachada e óculos de massa, abraçou o amigo, uma barba rala e esbranquiçada era a principal diferença que lhe notava, de resto estava igual, com aquele ar engatatão que levara à certa as miúdas de Sintra nos bons anos noventa - Vais à missa? -questionou o Gregório, vendo-o à entrada de S. Martinho. -Que remédio!. A minha mãe teimou, e sabes, com a idade, é melhor fazer-lhe a vontade. Para mais está com o neto. Eu, igrejas, é como o diabo da cruz. Vim para aqui fumar um cigarro…. Gregório sorriu, insistindo com o amigo: -Deixaste de acreditar em Deus, Roberto? Tu, que eras o anjinho favorito do padre Mateus? - Gregório provocou o amigo, que dava uma passa no cigarro quase terminado. Roberto teorizou: -Nunca leste o Christopher Hitchens? Escreveu aquele livro "Deus não é grande – como as religiões envenenam tudo". O gajo descrevia-se como um crente nos valores do iluminismo, e achava que o conceito de Deus ou de um ser supremo é uma crença totalitária que destrói a liberdade individual. Só a livre expressão e a investigação científica deveriam substituir a religião como um meio de ensinar ética e definir a civilização humana. Estou como ele! Gregório fez uma pausa, e pondo a mão no ombro do amigo retorquiu: -Sabes, Roberto, é mais fácil meter Deus debaixo do tapete que eliminá-lo para sempre. Porque, agnósticos, ateus ou meramente revoltados, todos somos capturados pela ideia de Deus desde que nascemos, e quando achamos que o podemos tratar por tu, já ele nos moldou o ser e o comportamento, desde quando ainda nem disso tínhamos noção. Assim, negar Deus é sempre uma atitude reactiva, nunca pró-ativa. Não se discute Deus, nega-se ou venera-se, e esse tipo de atitude é sempre irracional. Daí que o ateísmo nunca possa ser científico, mas apenas uma corrente de negação, uma moda, se quiseres. -Pessoalmente, meu velho, a minha postura é: não acredito em Deus!. E o bosão de Higgs acabará por o “matar”, enquanto chave do universo. Contudo, uma coisa é certa: acredito nos que acreditam. O homem é um ser de crenças. É aliás o único animal que distingue a água da água benta, como alguém um dia escreveu. Muitos dos que buscam respostas para as inseguranças, refugiam-se em algo a que chamam fé, e quando os seus desejos por conjugação de factores inesperados ocorrem, chamam a isso milagres. Acontece o mesmo nas ortodoxias comunistas, com outros santos, altares e sacerdotes. Vê lá a Coreia do Norte! O Freud já explicou isso tudo! Gregório sorriu, indulgente. Com o sino da torre da Vila a dar as dez, olhou o relógio e apressou-se, combinando com Roberto voltarem a ver-se em breve e deixando um comentário final: -Será negativo acreditar e ter fé? Quando a fé contribuir para acentuar valores como os da liberdade, livre arbítrio e solidariedade, nada a apontar. É certo que em seu nome se matou e destruiu, em nome de fanatismos a que se chamou fé, e intolerâncias a que se chamou conversão. Há muita floresta para lá de certas árvores, meu velho. Dá um beijo à tua mãe e ao teu filho! Se calhar ainda os vou ver por aí… Voltando para a porta da igreja, já repleta lá dentro, a missa estava prestes a começar, Fábio, compenetrado e em silêncio, sentava-se na fila da frente com a avó. Terminando o cigarro, Roberto deixou-se estar à entrada, em pé, mirando aquele cenário e cheiro que até aos catorze lhe havia sido familiar. Disparando, a música do órgão precedeu o início da missa e todos em pé saudaram a entrada dos celebrantes. Curioso, Roberto espreitou, a ver se o padre Mateus ainda estava na mesma, vindos da sacristia, nenhum dos três vultos se parecia com ele. Aproximou-se um pouco e atrás dumas vestes brancas, com uma sobrepeliz verde, reconheceu o Gregório. O velho amigo com quem palestrara momentos antes, era afinal o pároco de S. Martinho. Aproximando-se das filas do meio, sorriu para o antigo companheiro, que, abrindo os braços e dando início à missa, lhe piscou o olho, cúmplice, como quando marcavam golos no velho campo do Sintrense: -O Senhor esteja convosco! -saudou o padre Gregório. -Ele está no meio de nós! -respondeu a assembleia, em coro, acompanhada por Roberto, sussurrando. Uma missa de vez em quando não faria mal, por certo.
FERNANDO MORAIS GOMES MISSA DAS DEZ EM S.MARTINHO
Desde criança Roberto se habituara àquelas rotinas domingueiras: a missa das 10 em S. Martinho, com a avó Sara, a catequese com o padre Mateus, nariz de gavião, sempre a ameaçar com o Inferno, o pecado de brincar nas aulas de Moral, desfilara até de anjinho numa procissão, enfiado num fato de cetim com asas brancas que a Ermelinda cosera. Com os anos, afastara-se da igreja, apenas revisitada para casamentos e funerais. Era como voltar a um sítio estranho, desconhecedor da liturgia moderna, embora fascinado pelos vitrais e pela talha dourada, nisso se revia, mais pela mão do homem que pelos totens que os artefactos significavam. Passados os quarenta, e já separado de Matilde, voltou a passar o Natal com a mãe, em Sintra. Devota, D. Idalina não dispensou a missa matinal em S. Martinho, no dia seguinte ao Natal, e a custo para ela arrastou Roberto e o pequeno Fábio. Rendido ao espírito da data, Roberto lá se deixou levar, mal não faria, o prazer dum momento com as três gerações, normalmente separadas, levou-o a ceder, se bem que aguardasse sentado numa cadeira do fundo, contemplando os santos e absorvendo o cheiro a flores. Na sacristia, a velha Almerinda trocava as jarras e ia acendendo as velas antes da missa, num ritual de anos, desde que enviuvara. Roberto deixou-se a contemplar o ritual dos preparativos, na Expo, onde morava, nada disto havia já, o silêncio da igreja tranquilizou-o, logo interrompido pela necessidade de fumar um cigarro. Tardando a missa, e deixando avó e neto sentados, saiu a ver as vistas, quando vislumbrou o Gregório, velho colega do liceu. Há muito o não via e correu a abraçá-lo, recordando os anos de ambos nos juniores do Sintrense: -Gregório! Então, pá? Há quantos anos! Estás na mesma, velho amigo! Essa barriguinha é que…- Roberto ficou feliz de o rever, já pelos quarenta, também, há anos não se encontravam. Soube que tinha ido para Filosofia, ele seguira Económicas, mas acabara jornalista, em Lisboa. Com o filho viera passar o Natal, para o miúdo estar com a avó, o pai falecera há poucos meses e sentiu-se na obrigação de passar a quadra com a mãe e o filho. -Venham de lá esses ossos, grande Roberto! -o Gregório, com uma cara abolachada e óculos de massa, abraçou o amigo, uma barba rala e esbranquiçada era a principal diferença que lhe notava, de resto estava igual, com aquele ar engatatão que levara à certa as miúdas de Sintra nos bons anos noventa - Vais à missa? -questionou o Gregório, vendo-o à entrada de S. Martinho. -Que remédio!. A minha mãe teimou, e sabes, com a idade, é melhor fazer-lhe a vontade. Para mais está com o neto. Eu, igrejas, é como o diabo da cruz. Vim para aqui fumar um cigarro…. Gregório sorriu, insistindo com o amigo: -Deixaste de acreditar em Deus, Roberto? Tu, que eras o anjinho favorito do padre Mateus? - Gregório provocou o amigo, que dava uma passa no cigarro quase terminado. Roberto teorizou: -Nunca leste o Christopher Hitchens? Escreveu aquele livro "Deus não é grande – como as religiões envenenam tudo". O gajo descrevia-se como um crente nos valores do iluminismo, e achava que o conceito de Deus ou de um ser supremo é uma crença totalitária que destrói a liberdade individual. Só a livre expressão e a investigação científica deveriam substituir a religião como um meio de ensinar ética e definir a civilização humana. Estou como ele! Gregório fez uma pausa, e pondo a mão no ombro do amigo retorquiu: -Sabes, Roberto, é mais fácil meter Deus debaixo do tapete que eliminá-lo para sempre. Porque, agnósticos, ateus ou meramente revoltados, todos somos capturados pela ideia de Deus desde que nascemos, e quando achamos que o podemos tratar por tu, já ele nos moldou o ser e o comportamento, desde quando ainda nem disso tínhamos noção. Assim, negar Deus é sempre uma atitude reactiva, nunca pró-ativa. Não se discute Deus, nega-se ou venera-se, e esse tipo de atitude é sempre irracional. Daí que o ateísmo nunca possa ser científico, mas apenas uma corrente de negação, uma moda, se quiseres. -Pessoalmente, meu velho, a minha postura é: não acredito em Deus!. E o bosão de Higgs acabará por o “matar”, enquanto chave do universo. Contudo, uma coisa é certa: acredito nos que acreditam. O homem é um ser de crenças. É aliás o único animal que distingue a água da água benta, como alguém um dia escreveu. Muitos dos que buscam respostas para as inseguranças, refugiam-se em algo a que chamam fé, e quando os seus desejos por conjugação de factores inesperados ocorrem, chamam a isso milagres. Acontece o mesmo nas ortodoxias comunistas, com outros santos, altares e sacerdotes. Vê lá a Coreia do Norte! O Freud já explicou isso tudo! Gregório sorriu, indulgente. Com o sino da torre da Vila a dar as dez, olhou o relógio e apressou-se, combinando com Roberto voltarem a ver-se em breve e deixando um comentário final: -Será negativo acreditar e ter fé? Quando a fé contribuir para acentuar valores como os da liberdade, livre arbítrio e solidariedade, nada a apontar. É certo que em seu nome se matou e destruiu, em nome de fanatismos a que se chamou fé, e intolerâncias a que se chamou conversão. Há muita floresta para lá de certas árvores, meu velho. Dá um beijo à tua mãe e ao teu filho! Se calhar ainda os vou ver por aí… Voltando para a porta da igreja, já repleta lá dentro, a missa estava prestes a começar, Fábio, compenetrado e em silêncio, sentava-se na fila da frente com a avó. Terminando o cigarro, Roberto deixou-se estar à entrada, em pé, mirando aquele cenário e cheiro que até aos catorze lhe havia sido familiar. Disparando, a música do órgão precedeu o início da missa e todos em pé saudaram a entrada dos celebrantes. Curioso, Roberto espreitou, a ver se o padre Mateus ainda estava na mesma, vindos da sacristia, nenhum dos três vultos se parecia com ele. Aproximou-se um pouco e atrás dumas vestes brancas, com uma sobrepeliz verde, reconheceu o Gregório. O velho amigo com quem palestrara momentos antes, era afinal o pároco de S. Martinho. Aproximando-se das filas do meio, sorriu para o antigo companheiro, que, abrindo os braços e dando início à missa, lhe piscou o olho, cúmplice, como quando marcavam golos no velho campo do Sintrense: -O Senhor esteja convosco! -saudou o padre Gregório. -Ele está no meio de nós! -respondeu a assembleia, em coro, acompanhada por Roberto, sussurrando. Uma missa de vez em quando não faria mal, por certo.
FERNANDO MORAIS GOMES MISSA DAS DEZ EM S.MARTINHO
Desde criança Roberto se habituara àquelas rotinas domingueiras: a missa das 10 em S. Martinho, com a avó Sara, a catequese com o padre Mateus, nariz de gavião, sempre a ameaçar com o Inferno, o pecado de brincar nas aulas de Moral, desfilara até de anjinho numa procissão, enfiado num fato de cetim com asas brancas que a Ermelinda cosera. Com os anos, afastara-se da igreja, apenas revisitada para casamentos e funerais. Era como voltar a um sítio estranho, desconhecedor da liturgia moderna, embora fascinado pelos vitrais e pela talha dourada, nisso se revia, mais pela mão do homem que pelos totens que os artefactos significavam. Passados os quarenta, e já separado de Matilde, voltou a passar o Natal com a mãe, em Sintra. Devota, D. Idalina não dispensou a missa matinal em S. Martinho, no dia seguinte ao Natal, e a custo para ela arrastou Roberto e o pequeno Fábio. Rendido ao espírito da data, Roberto lá se deixou levar, mal não faria, o prazer dum momento com as três gerações, normalmente separadas, levou-o a ceder, se bem que aguardasse sentado numa cadeira do fundo, contemplando os santos e absorvendo o cheiro a flores. Na sacristia, a velha Almerinda trocava as jarras e ia acendendo as velas antes da missa, num ritual de anos, desde que enviuvara. Roberto deixou-se a contemplar o ritual dos preparativos, na Expo, onde morava, nada disto havia já, o silêncio da igreja tranquilizou-o, logo interrompido pela necessidade de fumar um cigarro. Tardando a missa, e deixando avó e neto sentados, saiu a ver as vistas, quando vislumbrou o Gregório, velho colega do liceu. Há muito o não via e correu a abraçá-lo, recordando os anos de ambos nos juniores do Sintrense: -Gregório! Então, pá? Há quantos anos! Estás na mesma, velho amigo! Essa barriguinha é que…- Roberto ficou feliz de o rever, já pelos quarenta, também, há anos não se encontravam. Soube que tinha ido para Filosofia, ele seguira Económicas, mas acabara jornalista, em Lisboa. Com o filho viera passar o Natal, para o miúdo estar com a avó, o pai falecera há poucos meses e sentiu-se na obrigação de passar a quadra com a mãe e o filho. -Venham de lá esses ossos, grande Roberto! -o Gregório, com uma cara abolachada e óculos de massa, abraçou o amigo, uma barba rala e esbranquiçada era a principal diferença que lhe notava, de resto estava igual, com aquele ar engatatão que levara à certa as miúdas de Sintra nos bons anos noventa - Vais à missa? -questionou o Gregório, vendo-o à entrada de S. Martinho. -Que remédio!. A minha mãe teimou, e sabes, com a idade, é melhor fazer-lhe a vontade. Para mais está com o neto. Eu, igrejas, é como o diabo da cruz. Vim para aqui fumar um cigarro…. Gregório sorriu, insistindo com o amigo: -Deixaste de acreditar em Deus, Roberto? Tu, que eras o anjinho favorito do padre Mateus? - Gregório provocou o amigo, que dava uma passa no cigarro quase terminado. Roberto teorizou: -Nunca leste o Christopher Hitchens? Escreveu aquele livro "Deus não é grande – como as religiões envenenam tudo". O gajo descrevia-se como um crente nos valores do iluminismo, e achava que o conceito de Deus ou de um ser supremo é uma crença totalitária que destrói a liberdade individual. Só a livre expressão e a investigação científica deveriam substituir a religião como um meio de ensinar ética e definir a civilização humana. Estou como ele! Gregório fez uma pausa, e pondo a mão no ombro do amigo retorquiu: -Sabes, Roberto, é mais fácil meter Deus debaixo do tapete que eliminá-lo para sempre. Porque, agnósticos, ateus ou meramente revoltados, todos somos capturados pela ideia de Deus desde que nascemos, e quando achamos que o podemos tratar por tu, já ele nos moldou o ser e o comportamento, desde quando ainda nem disso tínhamos noção. Assim, negar Deus é sempre uma atitude reactiva, nunca pró-ativa. Não se discute Deus, nega-se ou venera-se, e esse tipo de atitude é sempre irracional. Daí que o ateísmo nunca possa ser científico, mas apenas uma corrente de negação, uma moda, se quiseres. -Pessoalmente, meu velho, a minha postura é: não acredito em Deus!. E o bosão de Higgs acabará por o “matar”, enquanto chave do universo. Contudo, uma coisa é certa: acredito nos que acreditam. O homem é um ser de crenças. É aliás o único animal que distingue a água da água benta, como alguém um dia escreveu. Muitos dos que buscam respostas para as inseguranças, refugiam-se em algo a que chamam fé, e quando os seus desejos por conjugação de factores inesperados ocorrem, chamam a isso milagres. Acontece o mesmo nas ortodoxias comunistas, com outros santos, altares e sacerdotes. Vê lá a Coreia do Norte! O Freud já explicou isso tudo! Gregório sorriu, indulgente. Com o sino da torre da Vila a dar as dez, olhou o relógio e apressou-se, combinando com Roberto voltarem a ver-se em breve e deixando um comentário final: -Será negativo acreditar e ter fé? Quando a fé contribuir para acentuar valores como os da liberdade, livre arbítrio e solidariedade, nada a apontar. É certo que em seu nome se matou e destruiu, em nome de fanatismos a que se chamou fé, e intolerâncias a que se chamou conversão. Há muita floresta para lá de certas árvores, meu velho. Dá um beijo à tua mãe e ao teu filho! Se calhar ainda os vou ver por aí… Voltando para a porta da igreja, já repleta lá dentro, a missa estava prestes a começar, Fábio, compenetrado e em silêncio, sentava-se na fila da frente com a avó. Terminando o cigarro, Roberto deixou-se estar à entrada, em pé, mirando aquele cenário e cheiro que até aos catorze lhe havia sido familiar. Disparando, a música do órgão precedeu o início da missa e todos em pé saudaram a entrada dos celebrantes. Curioso, Roberto espreitou, a ver se o padre Mateus ainda estava na mesma, vindos da sacristia, nenhum dos três vultos se parecia com ele. Aproximou-se um pouco e atrás dumas vestes brancas, com uma sobrepeliz verde, reconheceu o Gregório. O velho amigo com quem palestrara momentos antes, era afinal o pároco de S. Martinho. Aproximando-se das filas do meio, sorriu para o antigo companheiro, que, abrindo os braços e dando início à missa, lhe piscou o olho, cúmplice, como quando marcavam golos no velho campo do Sintrense: -O Senhor esteja convosco! -saudou o padre Gregório. -Ele está no meio de nós! -respondeu a assembleia, em coro, acompanhada por Roberto, sussurrando. Uma missa de vez em quando não faria mal, por certo.